“Nigredo” é o 2º álbum do quarteto mineiro Lava Divers. Com 10 músicas, o disco foi lançado dia 28 de agosto de 2026. A banda se organizava para sair em turnê quando dia 01º de setembro chegou a notícia do falecimento de um ex-integrante, o Eddie Shumway (leia mais aqui).

Os shows aconteceram mesmo assim. Eu ia até colocar um “aconteceram normalmente” mas duvido que o sentimento de normalidade estava presente. Mas os shows aconteceram. E isso mostra o quanto a música e a criação conjunta do integrantes do Lava Divers é importante para a sanidade de todos. 

Eddie havia deixado a banda logo após o retorno da “normalidade” pós-Covid mas seguia ajudando e participando da produção de “Nigredo”. Estão creditadas a ele a mixagem e a masterização do álbum, bem como a co-autoria de “Nine of Swords”. Eu fiz esta entrevista com o Lava Divers um pouco antes do lançamento do álbum e o Eddie ajudou a responder algumas perguntas.

A banda tinha ficado parada um tempão, quase sete anos, voltou reformulada com Amanda Bredariol na bateria e Ian Alves na segunda guitarra. Pra mim o assunto era como processar o tempo, como retomar a paixão adolescente e criar algo relevante. O Lava Divers é uma bandas que melhor representa o tipo de som e a energia que eu gosto de ouvir. “Plush”, o primeiro álbum, lançado em CD e no digital pelo midsummer madness em 2017, é para mim um dos melhores discos da década passada. A tentação de se repetir mesmo sem tempo suficiente para a pura nostalgia para impulsionar “roqueiros velhos”, assombrava minha expectativa. Os dois primeiros singles, “Time” e “Nine of Swords” dissiparam essa nuvem. Ainda assim, um álbum inteiro, tão potente quanto “Plush”… será? Bem, eu vou deixar vocês ouvirem, mas eu estou absolutamente tranquilo que o se o Lava Divers resolver gravar um disco por década, teremos sempre o melhor que é possível produzir a cada dez anos. 

Com essa energia alta, confesso que demorei a processar a passagem repentina de alguém ligado a criação de algo que acabava de nascer. É um daqueles momentos que tudo que você faz parece pequeno diante da fragilidade da vida. Mas ao mesmo tempo é libertador saber disso; “Time”, um dos singles deste álbum fala justamente disso. Com vocês, Lava Divers.

MM – Quanto tempo a Lava Divers ficou parada? 
Glauco Ribeiro (G) – A pandemia nos obrigou a dar um tempo, e ficamos parados de 2019 até 2025. O último show antes de tudo isso foi em Goiânia, no Martim Cererê.

MM – Como foi a saída da Ana e do Eddie. Este foi um dos motivos da pausa?
G – Essa parada não teve nada a ver com a saída deles. A Ana saiu antes de tudo isso acontecer, quando ela decidiu ficar de vez em SP. Na época, a dinâmica da banda era muito familiar e ficou complicado por causa de logística. Já a saída do Eddie se deu exatamente na nossa volta (às atividades). No primeiro ensaio ele já sentiu que não tava a fim de recomeçar o processo de compor, gravar e sair pra fazer show. Foi honesto com a gente.

MM – Foi só o Glauco que se tornou pai?  
G – Infelizmente sim! Seria demais se tivéssemos outro baby-lava na banda!

MM – Quando decidiram voltar?
G – O Joe (João Porto) vivia botando pilha, dizendo que tava escrevendo material, mas a gente tava sem baterista! Depois da saída da Ana nós tentamos um formato com o Lucas Paiva assumindo as baquetas. Mas não deu muito certo. Nesse tempo a Bred (Amanda Bredariol) começou um projeto com o Joe, e ele viu que ela tava levando jeito e a convidamos pra entrar na banda. Ela já era amiga nossa há tempos! Sempre foi entusiasta da cena do cerrado, e sempre tava discotecando nas festas e shows. Já o Ian a gente já conhecia porque tocamos várias vezes com as bandas que ele já fez parte (Caffeine Lullabies e Brvnks). Então quando o Eddie saiu, o nome dele foi cotado porque além de ser um cara massa, a sonoridade da guitarra dele nos agradava.

MM – Quando as atividades foram retomadas? Havia algum compromisso marcado, tipo show? 
G – A ideia da retomada foi para compor e gravar. Muito tempo passou desde o “Plush”. Tínhamos muita coisa presa na garganta. Aí surgiu a oportunidade de gravarmos umas faixas com o (Gustavo) Vazquez (do estúdio Rocklab). Foi o que a gente precisava pra animarmos de vez a trabalhar de novo.

A foto da capa do álbum acima é da Amanda, baterista da banda.

MM – De quem são as músicas novas, do “Nigredo”?
G – Esse disco tem música de todo mundo! Foi um processo bem colaborativo. O Joe apareceu com um punhado de canções. Teve música resgatada de outros tempos. O Ian também compôs uma e a Bred colocou letra. E teve música criada a partir de riff deixado por amigo…

MM – Porque resolveram pegar músicas antigas, com a Ana e o Eddie?
G – Na época do primeiro ep da banda, tínhamos um tema instrumental que a gente usava pra começar os shows. Chegamos a gravar esse tema mas nunca lançamos. Brincamos com ela num ensaio e acabamos colocando vozes. Gostamos do resultado e convidamos o Jair Naves pra colaborar. Ficamos felizes porque é a primeira vez que a língua portuguesa aparece em uma música nossa.

MM – Como estas músicas novas tomaram forma? Nos ensaios de sempre?
G – Tivemos muito pouco tempo pra ensaiar nesse novo formato de banda, cada um mora num lugar diferente. Mas a química funcionou. Algumas a gente praticamente terminou no estúdio.

MM – Afinal, o que significa Nigredo?
G – Nigredo é uma palavra em latim que significa “negrume” ou “escuridão”. Na alquimia tradicional, representa a primeira fase de qualquer obra de transformação: a putrefação, decomposição ou a “morte” da matéria prima antes de poder ser purificada e transformada em ouro.

MM – Fale mais sobre a ideia de ter algo físico de Nigredo (k7, cd, vinil)
G – A gente vai fazer uma mini tour por São Paulo pra lançar esse disco né? Preparamos uma pequena tiragem de fitas K7. Todas feitas da maneira mais do it yourself possível. Mas estamos estudando lançar em outros formatos.

MM – Quais os planos para o futuro imediato, logo após lançar o disco? E o que vcs esperam de um cenário tão complicado como o atual (streaming, lugar pra tocar, alto custo pros itens físicos)
G – A gente quer tocar esse disco. Então a ideia é viabilizar shows pra gente divulgar ele. São tempos difíceis pra cena underground. Mas também nunca foi fácil, né? Esperamos que o disco possa alcançar o maior número de pessoas possível pra poder valer a pena levar esse disco pra estrada.

Ouça “Nigredo” na página da banda no mmrecords.

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