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Os Gambitos

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Emergindo na Primavera
(por Fernanda K. Schneider – curadora de playlists e mestre em Letras – Inglês)

A minha história de origem de supervilã foi a vez que eu estava com a menina que eu gostava e o namorado dela no carro dele e coloquei o “Fold Your Hands” do Belle & Sebastian para tocar; eles tiraram sarro das músicas (e da minha cara) e, três meses depois, era a banda preferida dela. Já na segunda frase do novo EP d’Os Gambitos, “Festa na Piscina das Políticas do Pós-modernismo”, B&S é citado como um dos meios de identificação entre o narrador e alguém com quem ele divide memórias. Especificamente, ele fala do B&S em 1996, ano que pertence à década que permeia as quatro faixas do EP.

Lançado em 1989, “Políticas do Pós-modernismo”, de Linda Hutcheon, o livro que inspirou o título do EP, assegurava que a representação da história agora abria caminho para a história das representações – uma ânsia de entender o presente a partir de representações passadas. Não se trata se recontar os fatos, mas de “recontar que se está recontando”. O EP d’Os Gambitos poderia muito bem vir com uma nota de rodapé, não verbal, deixando claro que está citando tradições pop que foram formativas aos membros da banda. São ora apropriações irônicas, ora divagações nostálgicas, às vezes as duas coisas, indistinguíveis.

Nos primeiros segundos do EP, a seção rítmica festiva da descomplicada “Outro Patamar” imputa no ouvinte o sentimento, quase visualização, reminiscente daquelas noites em que você sai de casa e volta com uma memória do bar, dos amigos, da banda, irreversivelmente impressa em um ou outro órgão do seu corpo. A partir daí, os Gambitos fazem sentido imediatamente, pelo menos pra quem já tinha o coração partido consolado por bandas indie pop nos anos 1990s. As quatro canções vividamente evocam bandas desse período, como Teenage Fanclub (em “Arquivo”, por exemplo) e Pavement (em suas canções mais pop), e o EP é direto em suas homenagens às atmosferas que vão de aconchegantes a caóticas dessas bandas.

Se em “Outro Patamar”, a nostalgia existe, mas não é levada a sério pela própria gênese punk da música, havendo uma vontade despreocupada em seguir em frente, em “Arquivo”, a música seguinte, a guitarra melódica e fluida preenche a letra inquieta que, oscilando entre interrogações e insights, reflete sobre a transitoriedade da vida, sendo impossível não olhar para trás. A sinceridade da guitarra às vezes intensifica e às vezes compete com a vontade de se distanciar da nostalgia e caminhar para a ironia, ciente de estar falhando aqui e ali. Ao longo de sua duração,o álbum forma afinidade espiritual com gêneros do passado, desconfiados de grandes narrativas, mas não a ponto do cinismo: nessa segunda música, Fábio canta, “fotos velhas desapareceram em um HD antigo / declarações que nunca apaguei só pra ainda ter comigo / as horas se arrastam e os anos voam, mas nem tudo tá perdido / estar vivo é o preço que se paga pra nunca ter morrido”, esta última frase imbuída de humor e veemência que te trazem mais pra perto.

A seguir, “Ponto”, um contraponto, ou não tanto um ponto quanto uma pausa, se compromete com a quietude de um presente nada urgente, com seu narrador, simultaneamente espirituoso e impassível, tirando uma selfie derrotada e a colando na superfície das texturas (e pequenas surpresas, como uma escaleta), que a música tem. Qual o ponto disso tudo? De certa forma, “Ponto” é o momento em que o narrador se revela como tal; é quando a gente sabe que tem alguém se olhando e se referindo ao seu próprio repertório para oferecê-lo com senso de humor ao ouvinte.

A quarta e última música do EP, “Maltesa” recupera a preocupação de naufrágio do single lançado no primeiro semestre deste ano, “Meiembipe”; cantada sobre uma parede de som melancólica e um pianinho por vezes hesitante, a música parece ser um produto de passagens.

Ouvindo o EP depois de 1 ano e ½ de isolamento/distanciamento social, onde, especialmente no início, os dias corriam sem distinção, ao passo que todos encarávamos uma mortalidade aleatória e tratávamos machucados coletivos de forma solitária (ou quase), quando qualquer tipo de comunidade era negado, é inevitável lidar com nostalgias, com memórias de encontros e colisões. Mais do que nos trabalhos prévios, as letras de FPPP, ainda que especifiquem um ou outro lugar da ilha, alimentam um senso de universalidade, como se o tempo (duração relativa das coisas) e o tempo (condições meteorológicas), descolados (ou deslocados) do mapa, fossem os lugares verdadeiros – como garante Ismael, em “Moby Dick”, lugares de verdade nunca estão no mapa.

A banda que existe de vez em quando volta no primeiro dia de primavera como quem ficou muito tempo debaixo d`água na piscina e emerge para tomar ar, aliviado. Como a primavera, doce e cíclica, FPPP começa proclamando “quanto mais o tempo passa, mais distante o presente” e termina em “será que ainda tá na história no dia em que eu não mencionar?”, convidando, pelo caminho e à moda pós-moderna, a questionar os processos pelos quais construímos as representações de nossas experiências. Segundo Hutcheon, fatos são eventos aos quais damos significado – os Gambitos constróem os fatos bonitos e os horríveis, de longe e de perto, e convidam a explorar as pequenas estações que compõem cada música, nos puxando com familiaridade e desafetação.

Ouça “Festa na Piscina das Políticas do Pós-modernismo” ao lado ou no Bandcamp.
O EP também está em todos as plataformas de streaming, procure o seu favorito nos links acima, a direita.

Outro Patamar (karaokê):

Gambitos lança 3º single em 2020
“Cada Dia Mar Grosso e Agressivo” é um EP com quatro versões da faixa-título e participação da cantora Urutau. Segundo Bianchini, “uma lentinha mais popinha, outra com guitarra mais alta e aquelas microfonias que a gente gosta, outra com camadas mais sutis de instrumentos e efeitos, outra só com violão e voz“.

Para você entender a analogia com o clássico álbum do Ratos de Porão, Mar Grosso é uma praia de Laguna, no Sul de Santa Catarina. A música principal do EP  foi composta ali, não LITERALMENTE na praia, mas no bairro de mesmo nome.

Originalmente pensada pra ser meio que uma mistura de Cocteau Twins com Lulu Santos, logo durante as gravações já deu pra ver que ia ficar outra coisa“, conta Bianchini. Para o lançamento do EP, o próprio gravou e editou sozinho um videoclipe em animação, assista aqui.

 

Apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar
“Ilha dos Pathos pt 2″ são três músicas que não eram para serem lançadas assim, neste EP. Na verdade, talvez saíssem um pouco depois: talvez o plano de gravar e finalizar o tal do álbum atrasasse, mas as músicas sairiam todas juntas, naquele conceito pretendido, que já tinha até rascunho de ordem das faixas. Mas sempre tem alguma coisa, dessa vez teve 2020.

“Ilha do Pathos pt 2″ tem esse nome porque a parte 1 são os singles que saíram antes (“Praça” e “É Proibido Ser Feliz em Santa Catarina”) e o cover de “Closedown” do Cure, incluído na coletânea do blog-selo The Blog That Celebrates Itself. A parte 3? Bom, planejar as coisas com antecedência nunca foi o forte dos Gambitos, mas é esquisito não ter a prerrogativa de fazê-lo. Talvez se chame Meiembipe.

Gambitos fecha 2019 com mais um single político.
No final de 2018, no clima bélico da eleição do Bozo, Bianchini lançou a importante “Notícias Tuas” que deixa registrado a estupidez de pessoas próximas, sejam amigos ou familiares, em seu posicionamento anti-esquerda ou isento nas eleições de 2018. É o tipo de música que já pode ser usada como uma espécie de “mas eu avisei”.

Em 2019, depois de lançar “Yesterday”, Bianchini volta a contestação, com letras em português, contra o cerceamento das liberdades e o falso puritanismo cristão em “É Proibido Ser Feliz em Santa Catarina”. Essa música é a primeira de um provável primeiro álbum d’Os Gambitos que deve sair em 2020. Saiba mais aqui.

Gambitos lança 2 novos singles em 2018

“Pop Songs Your Tinder Match Is Too Stupid to Know About” é a 1ª música do 3º EP dos Gambitos, “Politics of Post Modernism Pool Party of One”. A outra música vai se chamar “Ghosts”.

Quer dizer, talvez vire um álbum, mas provavelmente não, deve ser EP mesmo.

Os dois primeiros saíram, simultaneamente em 2008, e antes disso teve uma faixa isolada, “Milk and Honey”. Tá tudo isso aqui nesta página. “Think Again”, do EP Salami, entrou na trilha sonora do filme Radical Rio (2013), documentário sobre o surfista Dadá Figueiredo.

Como dá para notar, Gambitos é um negócio intermitente, se materializa bem de vez em quando.

A formação também: Fabio Bianchini e quem estiver junto no momento. Bianchini toca também no Superbug (SC), Coisa Horrorosa (SP/SC), foi de uma das formações do Winnie Cooper (SP) e fez um showzinho com o Headache (SP).

Nas atuais gravações, até o momento os Gambitos são também André Seben (ex-Superbug e talvez o mais clássico dos guitarristas de Florianópolis), Paula Ende (ex-vocalista das Borboletas Acrobáticas e o Menino Isoladinho e mais outras), Márcio Bicado (ex-Motel Overdose, ex-Verano, mais um monte de coisa, toca nuns lances da Camerata também), Cicero Bordignon (ex-Maltines, Casablanca) e Jean Gengagnel (Moebiius, ex-Mottorama).

As duas faixas foram compostas por Fábio Bianchini, produzidas por Fabio Bianchini, Cicero Bordignon e Jean Gengagnel.  Gravadas , mixadas e masterizadas no Estúdio Urbano (Florianópolis) entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018

Mas de onde vem essa banda?
Gambitos, 
em xadrez, caracterizam-se pelo sacrifício de peças ou peões ao adversário em troca de ganhos não materiais, como tempo, espaço, desenvolvimento ou linhas abertas. Cabe a este adversário refutar ou aceitar o gambito, devolvendo o material ganho em momento oportuno com vantagens.

Gambitos também pode ser uma variação de Cambitos, ou pernas finas.

Aqui pra gente, sempre foi o projeto solo do Fabio Bianchini, guitarrista do Superbug, lendária banda de Floripa. As músicas começaram a ser gravadas em 2006, no Estúdio 3958. Fabio alega que quando nenhuma outra banda acompanha seu ritmo descoordenado, ele apela para seu ego e lança coisas pelo Gambitos.

Extraordinariamente, nós já lançamos 2 EPs:

Do Salami nós podemos dizer que:
Fábio Bianchini faz voz, voz de apoio, tocou guitarra, violão, violão 12, teclados e também produziu,
Eduardo XuXu, ex-Pipodélica, atual Cassim & Barbária faz voz de apoio, toca guitarra, teclado e produziu,
Amexa (do Ambervisions) cuidou da produção e gravação,
MKurruivo toca baixo, quer dizer toca contrabaixo,
Xando Passold toca bateria,
e Dani Hasse faz voz, voz de apoio),
enquanto André Seben tocou guitarra.

Todas as música compostas por Fábio Bianchini.
Gravado entre 2006 e 2008 no Estúdio 3958.
Arte da capa: Daniela Bianchini.

Em Easy Living Candy Store o papo é o mesmo de cima. A diferença é que “Dancefloor” foi composta por Fábio Bianchini e Diógenes Fischer (Superbug); “Horse” composta por Fábio Bianchini, Diógenes Fischer e Pablo Prudêncio; “Old Man on the Phone” composta por Fábio Bianchini. E a arte da capa é do Koostela, enquanto que a bailarina da contracapa é do Galvão.

Formô?