Velha
é Gustavo Seabra. À frente da Pelvs, há 35 anos uma das bandas mais relevantes do indie nacional, Velha sentiu em 2006 que era momento de se desafiar: compor em português, vontade antiga, e buscar um estilo próprio, que ampliasse os horizontes de seu universo – principalmente movido pela aridez do rock nacional da época.

Era também um resgate de sua essência. “Eu já era o Velha muito antes de existir a Pelvs”. Convidou para o projeto André Saddy, tecladista da Pelvs, que viria a ser coprodutor do álbum e coautor de quase todas as faixas.

Por 20 anos, Velha lapidou obsessivamente cada nota, cada beat das oito faixas que compõem sua estreia. Fã de Pixies, banda marcada por álbuns curtos, cortou faixas como quem corta na própria carne. Mas música não é ciência exata: “Arpoador” (8:27) e “Every Single Time” (9:14) ultrapassam em muito o tempo médio das faixas de seus outros trabalhos.

Velha reúne Rogério Skylab (letra em “Não tem mais ninguém”), Laura Wrona (vocais em “Prédio” e “Aguarrás”), Ricardo Sardinha (letra em “Lâminas”), Marcelo Colares (coautor de “Mandy”, “Arpoador” e “Every Single Time”), Ricardo Mito, da Pelvs (bateria em “Mandy”), com coprodução de Eduardo Chermont do Estúdio Júpiter, onde as vozes foram gravadas. O resto foi gravado em estúdio próprio.

Com uso de cordas, xilofone, pianos, faixas longas, rompendo a bolha do indie rock, Velha abandona sua zona de conforto sem esquecer sua base, com uma guitarra estilo J. Mascis aqui, uma levada macia à la Yo La Tengo acolá, numa mistura que já nasce cheia de personalidade.

O trabalho surpreende, emociona, faz a gente querer abraçar alguém. O lirismo, a acidez, a entrega sofisticada e nunca fácil, porém pé no chão, sem pompa, traduz um espírito carioca que sempre existiu, mas que foge da (santíssima?) trindade “funk – bossa-nova – samba”, que insiste em enclausurar as possibilidades artísticas da cidade. O resultado é um disco único, que inaugura um estilo familiar e indefinível, traduzido com maestria na capa de Beatriz Lamego e Sol Moras.

Durante os 20 anos de criação de Velha, Velha passou por uma internação que serviu para amadurecer a pólvora inicial. Não à toa, na letra de Rafael Genu, baixista da Pelvs, em “Aguarrás”, “A pólvora arde embaixo da carne”. Coincidência?

“Prédio”, faixa 1, foi criada na época da Verve, banda que precedeu a Pelvs, e começa com a frase “A espera acabou”, talvez a coroação do processo de duas décadas, num riff inicial que lembra Dinosaur Jr. Ao longo do disco, Velha parece contar uma história, indo da adolescência dos playgrounds de “Prédio” ao vazio desamparado em “Não tem mais ninguém” (“nem para dizer good bye”), harmonia jazzística que chega para avisar que barreiras serão quebradas.

Apaixona-se na pop “Mandy”, para logo depois se perder num “Arpoador” monolítico: uma miscelânea de Alicia Keys, Portishead e Cocteau Twins. Corta-se com “Lâminas”, a música que talvez mais remeta a Pelvs, até sentir a pólvora sob a pele no lindíssimo post-rock “Aguarrás”, que flerta com Sigur Rós, e desemboca no luto em “Saudade de Ti”: dessa vez, bebendo na fonte de Stephen Malkmus (Pavement).

No fim, um aviso: ”Estou bem longe do fim” ecoa líquido em “Every Single Time”, música-abraço, a mais longa do disco, uma despedida de quem reluta em partir.

por André Tartarini
foto por Peterson Pessoa

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