Artefatos produzidos no limiar de uma nova tecnologia: Bonifrate fala sobre “Anões”
Pedro Franke lança suas músicas próprias usando a alcunha de Bonifrate. Em 2005, quando decidiu oficialmente abraçar também a carreira solo em paralelo ao Supercordas, Bonifrate gravou seu primeiro álbum, “Os Anões da Villa do Magma“, que saiu em formato digital nos suportes possíveis na época: MySpace, Tramavirtual e site próprio. Vinte anos depois, “Anões” foi retrabalhado direto das fitas originais e relançado nas plataformas de streaming, comemorando seus 20 anos de existência.
Conversamos com Bonifrate sobre as gravações em 2005, a redescoberta das músicas e outras coisas. Leia na entrevista abaixo.
Porque trazer “Os Anões” de volta? Há algum outro motivo além da data comemorativa?
O aniversário de 20 anos foi o primeiro estalo sobre fazer alguma coisa com “Anões”, e daí comecei a cavar os arquivos para encontrar os projetos originais. A facilidade com que eu consegui resgatar os projetos e trabalhar de novo nessas músicas tem diretamente a ver com o fato de ser uma produção musical muito simples, com poucos canais, sem plugins que fossem essenciais para os sons das coisas.
Então depois de refazer uma mixagem rápida de “Céu & Chão”, que usei como teste, eu vi que poderia melhorar bastante o som geral do disco, mantendo a sua naturalidade. E eu, assim como você, gosto de álbuns, né? Gosto de saber que tem uma música a mais numa versão japonesa de algum disco que eu gosto, vou ouvir um relançamento porque tem umas bonus-tracks que queria escutar, essa coisa toda. E a ideia de poder fazer isso com um álbum meu super lo-fi do início do milênio, que nunca chegou a entrar nas plataformas digitais, e trazer algo interessante pra essas canções me animou a fazer essa versão deluxe.
Falando do seu relançamento e dos relançamentos dos outros, o que você acha mais interessante na arqueologia: recuperar? Refazer? Ambos?
Acho que muitas coisas independentes brasileiras da era dos 1990 e dos 2000 foram gravadas no limite da tecnologia, então é muito comum que os artistas escutem seus sons dessa época e acreditem que daria pra soar melhor, mesmo havendo um elemento único ali no lo-fi das circunstâncias. Eu senti isso ouvindo o relançamento da Pelvs, que é um disco que ouvi bastante na época e curtia muito a sonoridade, mas com esse relançamento vai para um outro patamar, soa gigante como a banda deve ter imaginado na época.
Talvez não conseguíssemos chegar num som ideal por questões materiais, que agora são muito mais bem resolvidas. Então acho que ambos, recuperar e refazer, juntos, são o que torna esse tipo de releitura importante.
Você já fez algum relançamento do Bonifrate ou Supercordas? Se não, “Anões” é o primeiro de muitos?
Acredito que com esse espírito de aniversário de longa data seja o primeiro. Meu disco de 2011, “Um Futuro Inteiro”, foi relançado em vinil lá pra 2018, pela Dom Pedro Discos; e em 2022 eu regravei quatro canções de 20 anos antes, do primeiro EP como Bonifrate, comemorando as duas décadas desse projeto, que virou o “20 EP”, com uma versão visual no YouTube.
Mas nesse modelo “versão deluxe” com faixas bônus foi o primeiro mesmo. Acho capaz de mais coisas do tipo surgirem nos próximos anos. Tem “Seres Verdes ao Redor”, dos Supercordas, que faz 20 anos no ano que vem e também nunca esteve nas plataformas. Não daria pra fazer o que fiz com “Anões”, infelizmente, porque eu sumi com os arquivos originais, mas acho possível que role um relançamento digital, vamos ver o que rola.

De acordo com o texto que acompanha “Anões”, esse álbum foi também um dos primeiros experimentos com gravação no computador. Aonde gravaram? Qual era o processo? De que forma o Diogo te ajudou?
Esse disco foi gravado em entre 2004 e 2005 no quarto-e-sala em que eu morava com meu pai no Catete, então é uma produção de apartamento – violões, guitarras num ampli pequeno, percussões singelas, um microfone bem barato apenas, um acordeon que peguei emprestado com a avó do Régis, que tocava nos Supercordas na época. Eu tinha começado a gravar num porta estúdio de quatro canais em fita cassete, mas ele deu defeito no caminho e acabei gravando tudo novamente no computador.
Algumas versões dessa primeira tentativa em cassete entraram como faixas bônus. Lembro que gravei tudo sozinho, mas na hora de mixar achei melhor chamar o Diogo (Santander, do Supercordas). Ele tinha acabado de fazer um curso de áudio e estava a fim de botar a mão na massa com alguma coisa, então fez uma bela mixagem, e lembro que foi a primeira vez que jogamos plugins, efeitos diversos nos canais e isso tudo que a tecnologia digital já permitia.
Também acabou sendo um ótimo ensaio para fazermos o “Seres Verdes ao Redor” no ano seguinte – ele já estava na nossa cabeça como um projeto em diversos aspectos e muitas das canções já estavam escritas.
“Anões” circulou um bocado entre os amigos, especialmente amigos músicos, e muitos curtiram bastante. A banda Filme, que tinha um pessoal dos antigos Vibrosensores, curtiu tanto a sonoridade que chamou eu e Diogo para produzirmos um disco deles. No fim acabou não saindo um disco inteiro, mas rolou um EP com algumas músicas dessas sessões.
Aonde essas músicas estavam guardadas? Porque muita coisa destes primórdios de gravações digitais se perdeu… a era MySpace / Tramavirtual veio cobrar muito tempo depois o preço pelo desapego ao físico, registros desaparecendo com bugs em drives…
Pois é, e não só muito material gravado foi perdido quando caíram os servidores do Trama Virtual, como também matérias, listas, entrevistas. Eu tinha um blog onde disponibilizava os lançamentos pra download, o Shroom Records, que segue no ar, e na página do “Anões” tem link pra uma lista com os melhores de 2005 e pra uma entrevista no Trama, mas hoje estão todos quebrados.
Eu sempre tive o hábito de guardar arquivos nas mídias físicas, e esses projetos estavam em DVDs gravados que consegui recuperar. Ainda desconfio do armazenamento em nuvem, que acaba também sendo bem caro. Nunca se sabe o que pode acontecer com esses servidores físicos gigantes de companhias monopolistas que certamente estão mais interessadas em lucro do que em guardar arquivos para a posteridade. As iniciativas mais independentes levaram o fim que levaram naqueles tempos de transição.
Lançar digital naquela época era um pulo no escuro. O que você pensava sobre isso em 2005? Como foi o approach da Tramavirtual? E o da Peligro? Houve um sentimento de “agora sim” quando saiu o CD da Open Field/Peligro? Como é que a relação com um lançamento oficial daquela época se conecta/interfere com o lançamento hoje?
Estranhamente, essa coisa começou de uma forma um tanto natural. Era novidade, sim, mas já parecia pra gente que as coisas iam seguir esse rumo. O Trama Virtual surgiu antes de qualquer plataforma dessas, que eu me lembre. Mas nós já subíamos os lançamentos na internet em mp3 – no Soulseek e esse tipo de programa, em que espalhávamos as músicas entre amigos. Já tínhamos lançado o primeiro EP dos Supercordas (que nem é um EP, seria mais como uma “demo”) pela midsummer madness em CDR um pouco antes. O Trama Virtual foi muito maneiro, porque eles davam uma atenção para os lançamentos – faziam matérias, tinha listas semanais de discos mais baixados, listas anuais de melhores lançamentos, numa época em que a blogosfera estava apenas começando a surgir. Aquilo fez o Brasil ser pioneiro nessas plataformas, porque veio antes mesmo do MySpace.
O convite da Open Field/Peligro de lançar o disco físico veio em 2007, quando “Seres Verdes ao Redor” dos Supercordas já tinha sido lançado em CD, então foi como um projeto paralelo mesmo. Mas apesar disso, lançar pelo selo fez render esse projeto solo, houve convites pra tocar em São Paulo, e montei uma banda pra fazer esses shows – por algum tempo fomos Bonifrate & Os Anões.
Apesar da oficialidade do lançamento na época, eu sempre tive um pé atrás em jogar esses primeiros discos nos streamings, que talvez seja um pé atrás com streamings em geral – esse mercado monopolista terrível que isso tudo se tornou não é muito animador, ainda mais pra gravações tão contextualizadas daquele tempo. Não ficava muito confortável em alguém dar um play a esmo no Bonifrate e, em vez de ouvir algo mais atual e polido como “Um Futuro Inteiro” ou “Museu de Arte Moderna”, cair em alguma faixa super lo-fi dos “Anões” ou do “Sapos Alquímicos na Era Espacial” (EP).
Mas essa percepção vai se transformando, e o fato de conseguir tirar um som bem melhor do disco me animou pra ele finalmente entrar nessa discografia “oficial” das plataformas.
Também de acordo com o texto, “Anões” foi o primeiro que te levou a juntar uma banda e tocar. Quem era a banda? O que vc lembra desses shows?
Sim, como lembrei aí em cima, montei essa banda que chamamos Bonifrate & Os Anões. Era um misto de Supercordas e dessa banda paulistana de amigos nossos chamada Os Telepatas – salvo engano tinha Diogo no baixo, Giraknob e Stan Molina nas guitarras e Tiago “Lirão” na bateria.
Minha memória desses tempos é meio curta, mas acho que fizemos dois ou três shows – lembro de tocar no Milo Garage e no Berlin, em São Paulo, e talvez tenha sido só isso mesmo. A banda era bem afiada e as versões ao vivo ficaram bem legais. Depois lembro que fiz alguns shows em duo com o Giraknob tocando basicamente esse repertório dos “Anões”. Existem vídeos no YouTube de um show assim no Audio Rebel, no Rio, e também vídeos de um evento que o Stan e a Katia Abreu produziram na Livraria da Esquina, em São Paulo, que foi o Primeiro Festival da Canção Trovadélica. Nesse dia, me apresentei com o Giraknob, mas fizemos uma versão de “Os Anões da Villa do Magma Pt. 1” com vários convidados cantando e tocando percussões. Isso também ficou no YouTube, e até a Trama fez uma reportagem naquela noite.

Alguma das músicas de “Anões” sempre teve espaço nos seus shows? Alguma delas se desdobrou em outra música para seus discos futuros?
Acho que a primeira parte da faixa título seguiu presente no repertório, mesmo depois de “Um Futuro Inteiro”, que foi quando o projeto ficou mais sério e rolaram mais shows com algumas formações diferentes entre 2011 e 2014. “Céu & Chão” e “Estudo Rural em Ré Maior” eu eventualmente tocava em concertos solo, só com violão e casiotone. Inclusive o remix lançado agora dessa última música foi inspirado nessas versões solo, em que eu usava um beat de “bossa nova” com um baixo sintetizado do casiotone pra acompanhar o dedilhado no violão.
Acho que aquelas músicas não se desdobraram pra além dali em termos de gravações – ele tem, sim, algumas referências a canções anteriores – “For a Few (Fragmento)” é um pedaço de uma canção do fim dos anos 90, que gravei como meu primeiro projeto solo, de fita, que se chamava Psilocybian Devils, e “Estudo Rural” quase foi regravada pro “Seres Verdes ao Redor”, mas a ideia acabou caindo porque muitas músicas novas foram feitas ali entre 2005 e 2006.
Nessa época você ainda se dividia entre suas coisas solo e Supercordas. O que define como uma música Bonifrate e outra Supercordas?
Olha, na época eu tinha essa ideia de que faria com Bonifrate as canções que coubessem num formato menor, mais folk lo-fi, e com Supercordas faria o que pedisse um som mais grandioso e com banda completa. Mas depois foi ficando claro que na verdade era tudo uma questão de contexto. O material do álbum “Um Futuro Inteiro” poderia ter entrado num disco dos Supercordas, mas foi um momento em que a banda estava gravando “A Mágica Deriva dos Elefantes” e o processo foi se estendendo tanto que eu precisava fazer músicas novas, e acabei fazendo como Bonifrate.
Desde sempre e hoje mais ainda, eu tenho essa necessidade existencial de fazer música nas brechas de tempo que encontro em meio à rotina, e o mais prático acaba sendo fazer sozinho. Nos últimos anos de Supercordas, eu deixava para a banda essa coisa de planejar um disco, fazer umas demos e ir pra um estúdio gravar num tempo determinado, como foi com o último álbum “Terceira Terra”, de 2015.
Se eu entendi, “Anões” foi gravado no Rio, mas a temática parece mais com Paraty. Quais eram o temas na época que vc escreveu Anões?
Sim, foi gravado no Rio, acho que de Paraty usei só uns efeitos de ambientes – sapos, grilos etc, que devo ter registrado num gravador de fita de jornalista que eu tinha. Nesses primeiros anos que morei no Rio, ainda tinha muita conexão com Paraty – a maioria dos meus amigos ainda moravam aqui e eu vinha quase todo fim de semana.
Há essa continuidade entre os discos feitos na fita em Paraty, que tinham essa temática rural, os “Anões” e o “Seres Verdes ao Redor”, que acho que fechou esse ciclo “Ruradélico” das produções.
“Anões” é cheio da vida em Paraty na adolescência e pós-adolescência – pedaladas na chuva, as rãs em volta da casa, e também alguma nostalgia daquilo tudo enquanto vivia na cidade.
Engraçado que a faixa título em suas três partes foram inspiradas em uma piada de um colega de faculdade. Entre 99 e 2000 eu cursei Geologia, na UERJ, e tinha essa ideia maluca e geológica sobre os anões da Villa do Magma, que se comunicavam jogando matéria incandescente uns nos outros. Na época eu achei uma bela fábula psicodélica e foi o que inspirou esses versos e a história contada em “Os Anões da Villa do Magma Pt. 3”.
Os vídeos que você produziu reforçam essa ideia de mato, Paraty… era algo que você gostaria de ter feito em 2005 mas só deu pra fazer agora?
Acho que gostaria de ter feito algo assim, mas, na época, gravar videoclipes tinha toda uma dificuldade. Eu não tinha uma câmera que filmasse, precisávamos de profissionais pra fazer um vídeo. Hoje é fácil armar o celular num tripé, bolar alguma ideia e usar o jardim da minha casa como cenário, como fiz com esse vídeo e com vários outros dos últimos anos.
“Os Anões da Villa do Magma” foi relançado na versão remixada e remasterizada apenas no formato digital. Para ouvir:
página do Bonifrate no mmrecords
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