“Amor Trespasse”, primeiro álbum de Grisa, é pra ouvir baixinho e mergulhar
Quando conheci Giovana (aka Grisa), ela chegou com um extenso email de apresentação. Já tinha singles e EPs lançados além de uma estória de viagens e estudos sobre música mundo afora que eu me perguntei se o midsummer madness não era pequeno demais para ela. Ela me disse que o EP novo dela, “Wet Matchbox”, era perfeito para o selo. Ouvi e desde então fico extasiado/chocado com a visceralidade que ela coloca em suas músicas.
Depois deste EP em 2023, ainda participamos do lançamento de dois singles, até chegar em “Amor Trespasse” . Como disse neste texto aqui, é tanta intensidade que até parece que a Grisa já tem uma carreira de Elis Regina (e por isso eu acho o midsummer madness pequeno para tanto talento). Apesar de não ouvir tanto Elis, eu passei a minha infância ouvindo meus pais a ouvirem. E quando “Amor Trespasse” começa com “Ainda Assim” de peito rasgado em voz e violão, foi da Elis que eu primeiro lembrei.
Com suas 13 faixas, “Amor Trespasse” mergulha fundo em “travessias e amores profundos. Ansiedade, insegurança, medo de perder ou querer demais”. E ai as aspas das própria Grisa são fundamentais para eu tentar te explicar. A linda voz da Giovana está sempre em destaque, adornada por violões, outros estranhos instrumentos acústicos e barulhos que parecem cotidianos. A impressão que me dá é que ela está ali, o tempo inteiro, falando estas coisas para quem a escuta.
Quando a Giovana chegou pro midsummer madness, ela estava no Rio de Janeiro. Depois em São Paulo. E depois morando e fazendo shows em Juiz de Fora. “Wet Matchbox”, o primeiro EP, foi todo composto numa viagem noturna de ônibus de volta para sua cidade natal, que eu acho que fica no interior de SP. Antes disso, ela estava na França estudando. Mas parece que viveu um tempo no Reino Unido também. Aonde ela estava quando fez “Amor Trespasse” eu não sei, mas, como ela diz, “a passagem do tempo, sentimentos em transformação (…) se converte em música, imagem e presença”.
O título traz um paradoxo mas as músicas vão aos poucos explicando aonde Grisa (não geograficamente) está. Trespassar é atravessar, ultrapassar o limite, mas também, figurativamente, significa morte. Para tirar esse peso do disco, ela meteu um Amor antes de Trespasse. Ainda assim o disco é denso e por isso ele não combina com as fugazes estratégias atuais de divulgação. E eu, na minha função de selo que está ajudando a lançar (e por consequência divulgar, promover) fico aqui sem saber pra onde correr.

Ninguém vai ter tempo para parar e ler isso tudo. Mas se você chegou até aqui, “Amor Trespasse” é para ouvir baixinho e mergulhar.
Não existe um hit que vai “vender” o disco. Não existe uma música fácil, daquelas que você pode ouvir distraído e depois se pegar cantarolando. Quer dizer, até pode, mas eu tenho certeza que se você se deixar ouvir as coisas que ela está cantando, vai querer parar e ouvir com o coração. Ou com as vísceras.
“As músicas estão na temática das cartas do naipe de espadas e copas do tarot (…) navegam nessa temática dos sonhos, do amor, a questão de atravessar a superfície e adentrar as profundezas da psique e dos sentimentos…”
Eu geralmente não sou muito afeito a músicas “calminhas”, de voz e violão.
Tudo bem, cada um tem um ambiente sonoro aonde se sente bem. Eu me sinto bem no meio de barulho de guitarras, aquelas mesmo do my bloody Valentine que vocês que me conhecem deve estar cansados de saber. Mas desde “Wet Matchbox” que as músicas da Grisa estranhamente me pegam. Eu fico fazendo remixes dentro da minha cabeça, ouvindo dedilhados de Durutti Column, teclados do Yo La Tengo e abusos sonoros de Flying Saucer Attack e A Place to Bury Strangers, tudo dentro da minha cabeça.
“Amor Trespasse” está cheio destes gatilhos para minha cabeça, seja nas instrumentais “Arrenque” ou “Às de Copas”, seja na trilingue “Fogo Frio”, na sofrida e fantasmagórica “Três de Espadas” ou, na minha preferida, “Amor Que Avassala”.
Eu duvido que você tenha chegado até aqui. Mas e dai? Fica o registro. Quando você ouvir, mesmo que não tenha chegado até aqui, vai entender.
Ouça, com calma, na página da Grisa no mmrecords
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(Ando cansado e frustrado com lançamentos de discos. Adivinhações como estratégia e contagem de visualizações que não duram 3 segundos, não são uma comunicação real. Tempos atrás quando um disco era lançado, a gente pensava em foto, texto de apresentação, assessoria de imprensa, lançamento físico, shows. Não era mais eficiente (ou menos frustrante) mas era pelo menos mais real, ou, para usar um termo em voga, “orgânico”.
Tudo isso para dizer que esse texto é em 1ª pessoa e que nem de longe se permite ser um “release” sobre o disco novo da Grisa.)