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Verano

Coisa de três anos e pouco atrás, no comecinho do inverno de 2008, escrevi sobre “Stonehill Sysyphus”, primeiro EP da Verano: “Não é só porque o assobio do vento ali fora parece querer harmonizar com o órgão da faixa de abertura ou por causa da noite fria de um inverno que não sabe bem se começa de vez ou não”. E daí que, bom, agora o verão tá quase chegando e a trilha sonora se chama “Un Amor Lejos”, o primeiro “longa metragem” do grupo.

A troca de estação foi fácil de perceber porque escutei o disco em fevereiro, num CD-R azul-anil, bem na cor do céu que faz sobre a maior parte dessas músicas. O som continua acolhedor e aconchegante, íntimo mesmo, mas o que antes sugeria uma pequena reunião de amigos chega a “Um Amor Lejos” mais como festinha. As canções do primeiro EP vinham de encontros informais; essas agora são de uma banda estável, com ensaios e shows.

Essa diferença fica mais evidente em “Summerlove”, toda refrão, palminhas, escaleta cantarolante e sintetizador ronronante, mas o dia ensolarado está por toda parte. “Marianne marie (mon souffle)” brinca de surf music em francês com violões, sem se preocupar se o protetor solar vai chegar ou não, da mesma maneira como a banda não abandona em momento algum suas raízes naquele alt-folk mais obscuro, mas também não se prende nele.

Olha só o funk-glam rural de “Words”. Olha como “I Rest” parte de um começo que insinua jazz latino para depois rodopiar num fandango e cair numa valsa, assim, na maior. O ar campeiro-hispânico à beira-mar volta lá no final, em “Love Keep Away”, sempre dançando na tensão duma iminente explosão instrumental, que segura seu
próprio fôlego e com aquele som de piano. Aliás, atenção especial para os timbres, todos eles.

Ou então como os instrumentos abrem espaço para a faixa-título respirar e o baixo assumir a melodia ao redor da batida “tem alguma coisa diferente aqui”, mas assim, só que ainda assim dançante. Tão fluída quanto “Building Towers”, simples e direta, que vem logo depois.

As baladas, ao longo do disco, ficam então com mais oxigênio. Sim, tem bastante ar e respiração no disco. Pode acrescentar também aí um cheiro de restinga, areia e maresia. Mas de volta às baladas: já falamos nos timbres? Pois é, reparem no som da harmônica em “Show Me Your Love” e “Loneliness” e do fraseado simples da guitarra slide que sublinha de leve a melodia em “Shuffled Stars”.

“Un Amor Lejos” sai inicialmente como disco apenas para download e, no momento da escrita do texto, os integrantes da banda estão espalhados pelo Brasil. Supostamente, é um disco póstumo. Supostamente. De minha parte, sou determinado a acreditar nos milagres e maravilhas do verão. Ainda mais quando escuto essas coisas.

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Um Inverno de ventos harmoniosos.

O Banco Redondo é um dos pontos de referência informais preferidos e mais típicos de Florianópolis. Espanta por sua franqueza, por ser o que o nome diz: um banco, de sentar, redondo, ao redor de uma árvore em uma minúscula praça. Visitantes e imigrantes às vezes chocam-se. “Pensei que era um prédio redondo de uma instituição bancária”.

A primeira audição pública do EP de estréia da Verano foi na lanchonete que funciona bem na frente do Banco Redondo, por acaso, sem aviso, sem a presença de todos os integrantes e sem o público que acompanha seus shows na cidade. Ao invés disso, Kate Hudson na TV ao lado do freezer decorado com o logo de uma cervejaria. Faz sentido. Não é só porque o assobio do vento ali fora parece querer harmonizar com o órgão da faixa de abertura, “Lune Orange” ou por causa da noite fria de um inverno que não sabe bem se começa de vez ou não. É também uma questão de origem. A audição foi sem estardalhaço e improvisada como o início do grupo, três anos e meio antes. A maior parte das faixas do EP vem dessa época. E é por isso que o disco privilegia o lado mais lento e contemplativo, melancólico até, da música deles. As outras, mais agitadas, do show, foram compostas depois, quando Verano já era uma banda. Antes dela, havia o desejo de tocar aquelas canções, quase nuas, só com violão e órgão, em que Tiago Vekho e Luiz Henrique Cudo se alternavam para fazer algo diferente das experiências anteriores de ambos (que iam de grindcore a punk-funk).

Foi assim ao longo de todo 2005. Às vezes só os dois, às vezes com amigos que ocasionalmente visitavam esses encontros musicais, na base de “almoçar, beber e tocar” e acrescentavam um ou outro instrumento, mostrando assim possibilidades sonoras, nunca com formação fixa. Durante esse ano, não havia a pretensão de montar uma banda, até que a vontade de mostrar em público o que faziam tornou isso imperativo. Um pouco para dar corpo às canções nos palcos, um pouco para viabilizar as idéias de arranjos que surgiam. Nessa época, enquanto a banda tomava forma, quase ganhou o nome de uma de suas composições, “Casi un Verano”, por sugestão das visitantes, preferiram deixar Verano mesmo. Por conta de detalhes como esses, também resistem a catalogar seu som como folk-rock, apesar do impulso inicial ter vindo do interesse por influências como Mojave 3, Elliot Smith, Palace, Arab Strap, Songs:Ohia e artistas do tipo.

O primeiro show foi em abril de 2006, já como um trio, com o baterista Daniel Pfeiffer. Depois, sem pressa, chegaram, no comecinho de 2007, à formação que começou, por ali, a apresentar-se constantemente na cidade e gravar o EP, mas também sem pressa. Fora a bateria, registrada em estúdio, o processo foi doméstico. “Também por economia, mas principalmente por preciosismo nosso. Queríamos fazer do nosso jeito, tornava a experiência mais real para a gente”, contam. O resultado é que o EP da banda ficou pronto por agora, quando eles já têm mais um monte de outras faixas novas, todas loucas para serem ouvidas. Tudo bem. Foi de respeitar o ritmo dessas coisas que a banda nasceu. Há quem ache que pressa não é necessariamente uma virtude, assim como sempre haverá quem goste mais de sentar-se debaixo de uma árvore do que de agências bancárias.

A banda conta hoje com a seguinte formação: Tiago Vekho (violão, guitarra, bandolim, harmônica e vocal), Maiza de Lavenère Bastos (violão, violino, guitarra, órgão, piano e vocal), Luiz Cudo (órgão, piano, escaleta, guitarra e backing vocal), Roberto Saraiva (baixo) e Maximilian Tommasi (bateria). O antigo baterista era o Marcio Silva.

por Humberto Montenegro.

Resenhas:
Porém, há uma pista, e muito provavelmente esta pista já indica bem a fonte que esta banda bebe: o Folk.
Entre os “nortes” estão Will Oldham, Gram Parsons, Ladybug Transistor, Mojave 3, Magnolia Electric Co.; tudo bem, tem também Dylan e Cash, pra ninguém ficar assim tão perdido.

por Antonio Rosa, blog Transitoriamente

O folk catarinense teve bons representantes. Desde os primórdios, com o Expresso Rural (que sim, teve sua importância), passando por bandas como Pistoleiros (lendários), Superbug com o country alternativo, passando também por Spengler Tenglers e os desconhecidos The Karas (bem desconhecidos). Desde 2006 ganhamos mais um representante. De Florianópolis a banda Verano.
por Rafael Weiss, do Mundo47

“A simplicidade por trás dos arranjos “esconde” uma preocupação com detalhes que costumam passar desapercebidos ao ouvinte mais incauto. Uma linha de baixo levemente diferente no meio de Lune Orange, um backing vocal levemente colocado em La Fenetre – ambas com letras em francês, as outras quatro canções são em inglês -, o belo arranjo retrô do órgão em s órgãos tomando conta, mas sem apagar os outros instrumentos, uma pequena distorção da guitarra na quase country Stonehill Sisyphus … “
por Valdir Antonelli, para o site DropMusic