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\BANDAS\

Sleepwalkers

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Talvez falte um pouco mais de preâmbulos sobre este trio de Santa Catarina, revelação de 1997.

Quem são eles? O que fazem da vida? O que pensam? Esperam tocar no Faustão? Ou serão eternos adeptos do estilo lo-fi de fazer música, trancados no Freezer’s Room (não o antigo estúdio da PELVs no Rio, mas um quartinho na casa do guitarrista do Sleepwalkers em Floripa onde fica um refrigerador).

No início, havia a banda do Cristiano, que além de suas composições tocava covers do Nirvana e Jesus & Mary Chain. Isso por volta de 1991, 1992. Em 93, Sabrina entra para tocar baixo. Na época tinha apenas quinze anos. A banda ainda não possuia nome, até que foi forçada a escolher um do dia para a noite por conta de um show marcado. Deu Stephen King na cabeça. Depois eles nem acharam o nome tão interessante, mas já estava consumado.

Na época, tocavam músicas próprias e muitos covers. No segundo semestre de 95, entrou o baterista Alex Farmácia, com quem gravaram a primeira fita-demo Steps of Ink Cat’s Design, em julho de 1995. A bateria é a primeira a ser gravada e a experiência com o porta estúdio de quatro canais recém comprado era pequena. Era ler as instruções, gravar tudo na maior animação, mixar achando tudo muito legal quando já estavam exaustos, chegar em casa, ouvir e descobrir que ficou uma droga. O jeito foi remixar e o resultado é dos melhores.

Depois de mais de um ano sem novidades no repertório, “deu uma empolgação no Cristiano e ele fez cinco músicas de uma vez”, lembra Sabrina. Assim surgiu Sick Brains in Sue’s Coffee, segunda demo do Sleepwalkers, gravada em janeiro e fevereiro de 1996 (deu pra perceber que o evento se dá durante o período de férias). Nesta fita está Scandal (Not My Cup of Tea), que se não for a melhor canção da banda é seu hit mais certeiro, com uma melodia capaz de ser lembrada de repente e que alegra em segundos.

Em algum momento de 1996 ou 1997, Marcelo Colares foi tocar com o Cigarettes em Blumenau e lá conheceu Sabrina, que lhe entregou as fitas. Colares, chegando ao RJ entregou repassou as mesmas pro midsummer madness e nós nos apaixonamos. Gravações caseiras, melodias assobiáveis, letras espertas… Conversando com Cris e Sabrina, juntamos as 2 primeiras demos do Sleepwalkers em apenas uma fita, a Waiting for Santa Claus.

Esta fita cassete, a mm19, traz 21 músicas em 50 minutos. As 10 primeiras músicas (de Off the record à On the tiptoe) são da Sick Brain in Sue’s Coffee, as outras 11 são da primeira demo da banda. Scandal (Not My Cup of Tea) e  She has a finger in every pie fizeram parte da coletânea Don’t be Afraid My Son, que compilava várias bandas indies dos meados dos anos 90.

foto-cris.jpgNo primeiro semestre de 1997, o Sleepwalkers lançou sua terceira demo, Learn Alone or Read The User Manual, que só veio confirmar mais uma vez o talento musical do trio e seu gosto por títulos e imagens que sugerem uma inocência ambígua.

“As figuras a gente pega em uns livros de pesquisa jovem que não têm nada dentro, lá na casa do Cristiano”, diz Sabrina. “Nas canções há letras que contam histórias, outras falam de gurias, umas que só são pra rimar. Boa parte delas a gente faz na hora. O Cristiano chega com uns pedaços de música e na hora de gravar a gente inventa uma letra. Por isso eu nem sei nem o nome das músicas direito. Acontece de alguém dizer ‘eu adoro música tal’, aí eu digo ‘legal’, corro pra pegar a fita e escutar pra saber qual é a música”, conta a baixista. Esta fita traz 12 músicas.

Há uma cena em Florianópolis? Se houve, hoje é inexpressiva. Coloca-se o ingresso dos shows a 50 centavos e há quem queira pechinchar. Para o merecido reconhecimento do trio no underground brasileiro seria apenas uma questão de tempo se o esquema de distribuição do nosso alternativo não fosse ainda tão precário. Mesmo assim, a banda vai bem obrigado. Não se sabe quantas demos suas foram vendidas na Expo Alternative de 1997, mas sabe-se que foi uma das que mais saíram. Quem é fã de um som largadão cheio de harmonia e pede Sleepwalkers em CD pode começar a ficar contente. A banda estará regravando algumas canções suas e estas faixas entrarão para um disquinho que será lançado ainda neste primeiro semestre. Mais comodidade e segurança. Não enrola no toca-fitas do carro nem perde absurdamente a qualidade se gravado para o cassete.

No final da década de 90 o Sleepwalkers acabou. Cristiano mudou-se para Europa, hoje mora em Glasgow.

por Thaís e Weaver
jornal O POVO (Fortaleza / CE ) em 11/02/1998
livremente adaptado e complementado por midsummer madness


Em um artigo para revista Frente, o jornalista Alexandre Matias colocou a 3ª demo do Sleepwalkers em 15º. lugar entre os 25 melhores lançamentos indies brasileiros da década de 90. Ele escreveu o seguinte:

15) Learn Alone Or Read The User’s Manual – Sleepwalkers (1996)
Aqui vamos ter motivos de sobra para reclamações. Afinal, muitos vão falar dos tempos do baterista Farmácia ou da clássica Sick Brain in Sue’s Coffee, gravada um ano antes, quando muitos sequer reconhecerão a presença da banda. O fato é que os Sleepwalkers foram a melhor banda de indie rock, em todos os sentidos, que o Brasil já teve, deixando para trás concorrentes de peso como os goianos Grape Storms, a carioca PELVs e o Grenade de Londrina. A sonoridade lo-fi, o tratamento de guitarras, o senso melódico, os refrões, o apelo pop – as qualidades do grupo catarinense podem encher parágrafos e mais parágrafos. Mas além de sua qualidade, sua importância se dá por tirar o pop catarina da vibração riponga de bandas como Phunky Buddha e Dazaranhas. Depois deles, vieram o Feedback Club (da ex-sleepwalker Sabrina), o Superbug, os Pistoleiros, o Pipodélica e as gravadoras Low Tech e Migué Records, dando força à cena ilhéu de Floripa.

Veja a lista na íntegra, clicando aqui

O jornalista catarinense Emerson Gasperin escreveu sobre a compilação das duas primeiras demos:
Banda catarinense de Florianópolis. O Sleepwalkers sempre foi a menina dos olhos da cena indie brasileira dos anos 1990, um poder melódico absurdo. “Waiting For Santa Claus” na verdade foi uma “demo” lançada pelo Midsummer Madness que reunia os dois primeiros lançamentos da banda, que posteriormente ainda lançaria uma outra fita “Learn Alone or Read The User Manual”, em 1997, pouco antes do fim. Lo-Fi, provavelmente o melhor já feito por essas bandas, com guitarras horas bem noise. ‘She Has a Finger in Every Pie’ e ‘Fliking Hopes’ são maravilhas, vocais e backing doces e descompromissados. ‘Give On The Pip’ é um clássico do indie nacional. Pavement e Jesus & Mary Chain dizem presente nas influências. Clássico e obrigatório, nota 9.”