random songs

\BANDAS\

O Garfo

o-garfo-estudio-3-natalia-kataoka.jpg

foto por Natalia Kataoka

Fortaleza, segunda metade dos anos 2000.

As duas principais casas de shows eram o Hey Ho e a Noise 3D. Um movimento autoral se solidificava também com constante programação em centros culturais como o Dragão do Mar e do Banco do Nordeste, além de espaços na periferia como o Centro Cultural do Bom Jardim. Com espaço para experimentar e se aperfeiçoar, as bandas locais começaram a ganhar o país e aumentar o intercâmbio do resto do Brasil com a capital cearense.

Vitor Colares (à direita na foto, guitarra), Felipe Gurgel (no meio, baixo) e João Victor (à esquerda, bateria) já tocavam em outras bandas. Felipe tocava na Nulltype, que cantava em inglês, e no Café Colômbia, que cantava em português; João Victor também era percussionista no Kaostrônica e baterista do Fóssil, e junto com Vitor, guitarrista. Os dois também tocavam juntos no 2Fuzz, que cantava em inglês.”O 2Fuzz marcou muito a cena autoral de Fortaleza, no início dos 2000. Até hoje tem gente que pergunta sobre a banda“, lembra Felipe. “A gente se conheceu uns 7, 8 anos antes disso. Lembro que houve uma conversa virtual de onde surgiu a ideia e logo O Garfo começou a ensaiar“.

Dos ensaios logo surgiram as primeiras músicas, que foram gravadas mas nunca lançadas. “Depois que gravamos, as faixas foram entregues a um produtor musical que prometeu finalizar mas nunca fez“, recorda Felipe. As faixas eram “Medium” (que foi regravada para o 2º EP), “Banzina”, “Absinto”, “Prantomática”, “Batuta” e “A Cria” – mas esse registro se perdeu para sempre. “Ainda temos as bases delas, mas nunca foram mixadas, nem masterizadas. Esse produtor ia inserir arranjos eletrônicos também mas, segundo ele, teve uma série de contratempos e nunca terminou, mesmo tendo sido pago.

Passado o trauma, “Epizod” foi gravado em home studio com produção musical de João Victor em meados de 2009. As baterias das quatro faixas chegaram a ser captadas em um outro estúdio de Fortaleza mas foram substituídas por bateria ‘virtual’ por causa da qualidade.”Ou talvez por causa da minha pouca experiência em mixagem de bateria“, confessa João Vitor.

João já trabalhava com produção musical para publicidade em seu home studio e o trio achou melhor optar pela liberdade de tempo para experimentar em vez de ficar preso ao custo por hora de outros estúdios. “O processo foi um pouco lento mas ficamos satisfeitos”, conta João. A masterização foi feita pelo Marcílio Mendonça, no Pro Áudio Estúdio (em Fortaleza).

Os percalços para chegar até seu primeiro lançamento oficial conferiram alguma experiência à banda. As cinco músicas selecionadas eram, na opinião da banda, “o que de melhor haviam feito até o momento“.  Antes de “Epizod” ser lançado, o trio fora um dos 5 finalistas entre mais de 100 bandas do Nordeste na Seletiva do Abril Pro Rock 2008, fora muito elogiada no III Festival Se Rasgum (PA) em 2008 e nas edições de Natal (RN) e João Pessoa (PB) do Festival Nordeste Independente.

O-Garfo-web

foto por Natalia Kataoka

As cinco músicas instrumentais nasceram e foram registradas assim em parte por falta de opção.  “Até pensamos que alguém deveria/poderia cantar, mas nunca apareceu, nem nenhum de nós se candidatou na época“, lembra Vítor. Geralmente as músicas surgiam de uma linha de baixo para os arranjos e o trio construía junto a partir daí. A falta de uma narrativa oral liberou a banda para títulos criativos como “Alpa Tino”, “Gin Gym”, “Midi Sina”… “Você tem um espaço generoso pra dar nome a uma música assim, porque pode surgir de uma piada interna dos músicos, do nonsense mesmo. ‘Gin Gym’ ganhou esse nome porque imaginávamos como uma trilha sonora de alguém fazendo exercício depois de tomar uma dose de gin… ‘Midi Sina’ é uma referência afetiva do Ceará, do modo de falar dos nossos antepassados (Medicina se falava “Midicina”). E por aí vai“, explica Felipe.

Com EP em mãos, a banda circulou bastante nos festivais independentes da década de 2000. Tocaram no BNB Instrumental, no Forcaos, na Feira da Música, todos em Fortaleza, além de Festival DoSol/RN, Coquetel Molotov/PE, PIB/SP, Mola no Circo Voador (RJ), Calango/MT e nas edições do Grito Rock em Goiânia, Cuiabá, Uberlândia e Montes Claros/MG. “Os shows que marcaram foram um show em Goiânia, no Martim Cererê, pelo Grito Rock, o do Se Rasgum, o do Circo Voador… Particularmente gostei muito de tocar em Brasília, que eu sou de lá e jamais tinha feito shows na cidade até então. Uma cidade onde sempre era legal tocar era João Pessoa, na Paraíba“, conta Felipe.

Circulando pelos festivais, apesar de já meio descrentes da mídia física (no final dos anos 2000, mp3 já era realidade, MySpace era o site da moda e os serviços de streaming ainda não existiam) O Garfo optou pelo CDR como uma opção para ter algo para vender barato. “Vendemos um tantinho“, lembra Vitor, “não sei quantificar“, completa Felipe. “O que eu lembro é que no Circo Voador, no Rio, em 2010, foi o dia em que a gente mais vendeu o disco. Tinha umas 1000 pessoas vendo o show“. O projeto gráfico é de Felipe Dias, amigo da banda e ilustrador.

O Garfo no festival MOLA 2010 no Circo-Voador. Foto de Ana Schlimovich

O Garfo no festival MOLA 2010 no Circo-Voador. Foto de Ana Schlimovich

Além de shows em festivais, a cena autoral de Fortaleza também ia muito bem, obrigado. O Garfo costumava dividir o palco com as locais Plastique Noir, “que a gente admirava bastante, tinha muito interesse“, com o Montage, Jardim das Horas, e Fóssil (onde o João Victor também tocava guitarra). “Além disso, a gente gostava de tocar com o Macaco Bong, fizemos um show com eles no Music Box, em Fortaleza, depois umas turnês pelo Nordeste, shows em São Paulo num programa de rádio na Livraria Saraiva, do Morumbi Shopping. O Do Amor a gente cruzou muito em 2 ou 3 festivais, e eles se ligaram na gente também, fizemos amizade. Júlia Says do Recife também, ficamos amigos“.

A partir de 2011 a banda começou a se dispersar. O Vitor foi morar em São Paulo sendo substituído por Danyel Fernandes, do Plastique Noir na guitarra em alguns shows. Felipe estava ocupado com planos de um mestrado e O Garfo foi aos poucos parando de tocar e ensaiar mas nunca acabou oficialmente. O último show foi no Centro Cultural do Bom Jardim, em Fortaleza, em 2011.

Em 2018, “Alpa Tino” entrou na coletânea “Tropical Fuzz” do midsummer madness e os planos para relançar “Epizod” no streaming ganharam força. Em 2020, o EP finalmente foi disponibilizado no streaming.

Ouça, compre e baixe no Bandcamp
Spotify
Deezer
Apple Music

——————————————–

Boa resenha em O Povo (CE)
Episódio instrumental

Epizod é o título do EP que o trio cearense está lançando pelo selo carioca Midsummer Madness. Com este disco, O Garfo se integra à cena alternativa com uma proposta instrumental personalizada
por Luciano Almeida Filho
26 Set 2009 – 02h33min

Nos últimos anos, a cena alternativa brasileira viu surgir diversas formações dedicadas ao instrumental, com DNA vindo do rock e não do jazz ou da MPB. E elas não são localizadas especificamente numa cena local: tem o pioneiro Hurtmold, de São Paulo (SP), o som energético do Macaco Bong, de Cuiabá (MT), ou a mescla de texturas e peso do Fóssil, daqui de Fortaleza mesmo. Outra formação cearense que já se destaca no cenário nacional é o trio O Garfo com o lançamento do segundo EP, Epizod, através do selo carioca Midsummer Madness Records.

Epizod é um CDzinho bacanérrimo, dentro do formato de EP, trazendo quatro músicas e uma bônus. Apesar de ser considerada uma banda irmã da Fóssil, já que o guitarrista Vitor Colares integra as duas formações, a sonoridade d´O Garfo é bem distinta, cheia de grooves com pique roqueiro, onde se ouve ecos do rock pesado com matriz no grunge, pitadas de techno- pop e industrial, dentro de uma mescla equilibrada de guitarras fortes, baixo na frente, uma bateria certeira, além da força considerável das programações eletrônicas. Vale também ressaltar um certo humor intrínseco nos títulos (por exemplo: Alpa Tino e Midi Sina).

A mistura chega a um denominador com personalidade e faz d´O Garfo um forte nome para contribuir com a diversidade deste cena alternativa instrumental brasileira que vai se consolidando. O Ceará vai se confirmando como um dos eixos criativos deste cenário, com uma diversidade de estilos que é absolutamente saudável.

——————————————–

“Mais heavy que o grunge, e menos caótico que ele, o gênero costuma obter bons resultados em ocasionais flertes com a eletrônica.”
Dellano Rios, Caderno 3 – Diário do Nordeste (setembro 2009)

——————————————–

Entrevista no e-zine LadoNorte, conduzida por Jesuíno Oliveira, introduzida desta forma: “O atual momento da moderna música instrumental nacional é composto na sua essência por duas características: jovialidade e inteligência. Com os dois pontos o trio cearense O Garfo se escora com precisão, diversidade e constância artística. Sua sonoridade é um retalho, precioso e variado, reunindo elementos avant-garde de música eletrônica, industrial, krautorck e post-rock.”
Leia mais aqui.

——————————————–

Resenha do show dentro da Conexão Vivo, abertura do festival No Ar Coquetel Molotov 2009:
“É a história da banda O Garfo, por exemplo. Que percorreu 12 horas de estrada entre Fortaleza e Recife apenas para tocar após a exibição do documentário Guidable. Com a isca já presa na atenção do público, eles mostraram que o rock instrumental que fazem – tão comum a edições passadas do No Ar – não está tão distante assim do gosto de quem escuta o punk do Ratos de Porão. Os curiosos que ficaram já foram fisgados e inspirados a quebrar essa barreira entre nichos. Estratégia esperta para formação de público, sem dúvidas”.

No começo de 2009, a banda e o midsummer madness lançaram um single da música “Alpa Tino” (Felipe Gurgel / Arranjos: O Garfo). Gravada por Gustavo Portela, no Planeta Studio (Fev/2009) e por João Victor Barroso, em home studio (Maio/2009).

“É fantástico como tem surgido uma cena instrumental pop que está num patamar de qualidade muito superior a todas as outras bandas independentes. Inclui nessa lista, além das duas citadas, o Macaco Bong e O Garfo (CE) que você entende a equação”
(Bruno Nogueira, blog Pop Up!)

——————————————–

“O Garfo passeia por um terreno quase inexplorado pela cena cearense, com um som instrumental, meso-eletrônico/meso-humano, que se aproxima do rock industrial do Nine Inch Nails, apesar deste não ser bem o ponto. O grupo já disponibilizou alguns demos no TramaVirtual.com.br e deve soltar um EP este ano”
(Dellano Rios, Diário do Nordeste, em Jan/2008)