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\BANDAS\

Minds Away

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Blumenau, SC, 1996.

Xando e Giba resolveram montar uma banda para tocar rock alternativo, noise, ou como se costumava chamar nos anos 90, guitar. Dividindo o espaço de ensaio e também os equipamentos com uma banda de Hardcore chamada Enzime, essa primeira formação tinha ajuda do Júnior na guitarra e voz “até arrumarem alguém” para começar oficialmente. Lá pelo segundo ou terceiro ensaio, Lima apareceu com a guitarra em punho e pediu “uma vaguinha para tocar“. Os quatro, incluindo o Júnior que acabou ficando são a formação original da Minds Away.

Essa formação gravou a primeira fita “Cotton For Your Ears” em 1996 e começou um circuito de shows pela região. Não eram muitos locais mas todos construiram uma enorme fama: Point 444, em Blumenau, o Trópicos que depois virou o famoso Underground Rock Bar em Florianópolis e o Curupira Rock Clube de Guaramirim. Sobre este, Giba recorda que “qualquer noite no Curupira se transformava numa noite clássica, divertidamente insana“. A Minds Away tocou lá muitas vezes, inclusive dividindo palco com Júpiter Maçã, Pin-Ups, The Cigarettes e Astromato.

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Shows memoráveis não faltaram. Lima se lembra de um show “no início da banda quando criamos pânico arrastando e jogando instrumentos num show num colégio em Timbó, um show em trio abrindo pro atrasado Júpiter Maçã no Curupira quando ficamos improvisando Pavement e Sonic Youth enquanto a atração gaúcha não chegava, de um conflito com os clichê-grunges em uma escola de música aqui em Blumenau… a lista é longa!

Giba acrescenta o 1º show no Underground Rock Bar em Floripa com o palco praticamente dentro da Lagoa da Conceição, outro também em Floripa, no Café Matisse, com Superbug e Sleepwalkers e os shows do Point 444. “Era um bar simples, muito simples, que ficava em frente ao lugar onde ensaiávamos. O dono aceitava qualquer proposta então quase todo final de semana a gente organizava show lá. Pensa que Blumenau nos anos 90 não tinha bares que apoiavam a cena independente, então o jeito era convidar as bandas conhecidas e organizar o show nós mesmos“.

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O intercâmbio com nomes como Frank Jorge e Plato Dvorak (RS), The Cigarettes (RJ), Johnsons (GO) ajudou a distruibuir o trabalho da Minds Away pelo resto do país. Lima: “Mesmo estando distante geograficamente, nos sentíamos parte da cena ‘Guitar-Band’ do Brasil nos anos 90. Second Come, Pin-Ups, Killing Chainsaw, The Cigarettes, Pelvs, Superbug, Gutta Percha, Sleepwalkers, Brincando de Deus… Muita gente boa, que consideramos bandas irmãs“.

Na Minds Away, além da correria de organizar shows, trazer bandas de outros estados e aumentar o intercâmbio, Lima também lançava bandas pelo seu selo de fitas-cassete, a Low Tech Recs. Criado em 1995, o selo tinha a Minds Away como um dos primeiros lançamentos. Apenas em fitas, a Low Tech Recs foi uma das signatárias do manifesto Demo é o Cassete, que reforçava o caráter perene e oficial das fitinhas para a história das bandas independentes brasileiras.

Com a atividade intensa, Júnior deixou o Minds Away e o trio Xando, Lima, Giba gravou a segunda fita “Painting Dreams” em 1997.  Com o ritmo de shows inalterado, alguns segundos guitarristas/vocalistas passaram pela formação como Marco (Enzime e Three Dead Seeds) que ficou na banda aproximadamente um ano e ajudou compondo algumas músicas, e Dubes (Os Pistoleiros) com quem a banda gravou um álbum nunca lançado.

Mais ou menos em 2001, o Xando foi morar em Floripa, a agitação de shows em Blumenau tinha esfriado e a Minds Away deu um tempo. “Em 2006 nos reunimos para um show no Underground Rock Bar,  que estava para fechar. Depois, de 2012 até 2016, a gente fazia um ensaio  por ano até o Júnior retornar para a banda“, lembra Giba. Nesse meio tempo, o único lançamento foi “D+G Song + GJorn” que é um single do álbum não lançado de 1999.

Em 2018, Lima abriu o estúdio Dog House com a companheira Letícia. As músicas novas que estão no EP “Talking Closer” foram todas gravadas lá. A demora, segundo Lima, tem a ver com o aprendizado da parte técnica. Quando o estúdio estava começando a ganhar corpo e as músicas novas nascendo, veio a pandemia. “Aí a coisa toda complicou. A essência eram os ensaios. Imagina fechar cinco pessoas durante duas horas no ar condicionado. Mesmo que a gente saiba que os concorrentes mal fecharam as portas, não importa. Nossa posição foi clara desde o começo: não queremos arriscar a vida de ninguém. Continuamos assim, mal pagando as contas e sobrevivendo como dá, com ajuda da família e dívidas se acumulando. Em contrapartida, o tempo livre me permitiu estudar mixagem, masterização. Retomei vários projetos. De certo modo, isso me ajudou com a sanidade mental. No Minds Away, migramos pro campo virtual e assim estamos”, explica Lima.

“Talking Closer” é apenas o 3º EP oficial do Minds Away, tem 4 faixas, todas regravações de músicas de várias fases da banda. “Shinny Pretty Shake” está em “Painting Dreams”, “(Don’t Let Me) Shock me, Shock me” é outra do álbum não lançado de 1999 e “Sleeping On The Bus Stop” só existia em gravações ao vivo. Para completar, “Send in The Clouds”, do álbum “American Water” da banda norte-americana Silver Jews foi versionada. “Sempre gostamos da banda. Com a morte do David Berman, surgiu a ideia de um tributo num grupo de whatsapp. Para muitos foi só uma ideia, cada um sugerindo a música que sua banda iria tocar. Pra gente foi escolher a música, gravar, mixar e fazer o vídeo. Tudo muito dinâmico e cooperativo. Foi um processo que realmente salvou a banda do ostracismo e deu um motivo para continuar“.

A capa do novo EP é do designer da banda, Giba: “Entrou a pandemia e bateu a depressão nos quatro. Vontade zero de fazer qualquer coisa e com isso, a criatividade se foi. Ficou tudo parado, até que eu mandei um rabisco no celular com uma foto de anos atrás. Não foi consenso na hora, e meio que esquecemos essa capa. Veio ‘Send In The Clouds’ e a possibilidade de lançar. O conceito é que apesar das paradas e retornos, a banda sempre esteve perto dos amigos e de quem gosta da banda. A capa acabou encaixando como um contraponto, como se estivéssemos lá embaixo, longe, esperando para nos chamarem para conversar de perto“.