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Marcelo Colares (The Cigarettes) em entrevista para o Tupanzine

Bárbara Erckman fez uma entrevista com Marcelo Colares para a edição de Dezembro de 2011 do Tupanzine 8 em 1 (92 à 99). Ela nos cedeu o texto na íntegra, que você pode ler abaixo:

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Marcelo Colares fala sobre o 3º disco do Cigarettes.

por Bárbara Erckman

Marcelo, você já teve algumas bandas. Gostaríamos de conhecer um pouco de sua trajetória.
Na verdade, tive uma banda na adolescência. Depois participei dos Vibrosensores e do Alydie. E talvez do Number 4. Ensaiei com o Stellarblast e também numa banda com o Lariú. Mas a banda da adolescência era uma de covers chamada Síndrome de Down. A gente tocava Jesus, Joy Divisions, The Smiths, Echo, punk rock nacional, Sex Pistols, era uma forma de começar a aprender a tocar. Fizemos alguns shows. Era bem legal e estranho ao mesmo tempo, já que ninguém na plateia conhecia as músicas. Lembrando agora, era uma coisa bem surreal. Lembro da gente tocando em exposição agropecuária, barzinho, até show do Nelson Gonçalves a gente abriu. Eu tinha quinze anos e só tocava guitarra.

Que bandas te inspiraram na adolescência?
Difícil dizer exatamente o que me influenciava. A gente sofre influencia de tudo e às vezes mesmo daquilo que acreditamos não gostar. Eu ouvia absolutamente de tudo . E mesmo o que a gente não ouve, também influencia. De qualquer forma, o que acabou interferindo de fato no que eu viria a fazer, tá lá. É fácil identificar. Eleger alguns nomes talvez seja injusto com essas bandas e artistas por querer associá-los de algum jeito ao som que eu terminei por fazer, e, em menor escala, injusto também comigo mesmo e até com quem ouve, já que seria uma restrição à possível experiência.

Como surgiu o Cigarettes? E a escolha do nome?
A ideia de criar um veículo para mostras as músicas que eu vinha fazendo acho que surgiu em 92. O nome veio em 93 enquanto eu olhava uma caixinha de Marlboro. Depois, dez anos depois, descobri que já existia uma banda inglesa meio sei lá neo-mod com esse nome. Fazer o que…Na época eu nem imaginava. Antes disso, pensei em usar o nome Marafo de Exú. O primeiro show foi em 94 no Garage no Rio. A partir daí, formei várias bandas com o mesmo nome.

Colares18Fale sobre a discografia do Cigarettes, as primeiras k7s e o que mudou de lá pra cá.
- Foolish things & Blah Blah Blah (94)
Primeira coisa que gravei, sozinho, com um duplo deck, um microfone, um violão e um casiotone, numa tarde.
- Felícia (94)
Gravada num Tascam de 8 canais alugado do baterista do Finis Africae. Tudo gravado numa tarde e mixado em duas horas. Primeiro registro em que eu trabalhei com o Gustavo
Seabra.
- Brazil’s Sad Samba (96)
Primeira experiência num estúdio, infinitos 16 canais.
- Bingo (97)
Primeiro disco da banda, primeiro disco do Midsummer Madness. Parto difícil, idas e vindas, quase inacabado.
-Ashtray(99)
Coletânea com sobras do Bingo, faixas que gravei nos intervalos das gravações da demo do Vibrosensores do Sidney Honigsztejn, e mais algumas já lançadas em compilações com outras bandas.
-Song Machine (99)
Gravada num Tascam de quatro canais numa temporada que passei em São Paulo. Meu registro mais obscuro. Saiu pela extinta Slag Records.
- Blue Sun/ Lunar Brain/ Broke Juvenille (2002)
Feito entre 2000 e 2002 num pentium II, com placa de som onboard e 64 mb de memória ram. É o meu deslumbramento com os sintetizadores virtuais e sequencers. Gosto bastante. Tem pra baixar na tramavirtual
- All is Well (2005)
Gravado em 2003 num estúdio aqui em Itaperuna especializado em gravações evangélicas.
Era uma mesa da Roland com HD e sistema operacional que eu achava horrível de operar e o técnico não fazia a menor ideia do som que eu queria. A masterização não ajudou muito e o resultado final em termos de áudio é sofrível, por ser desigual e confuso. Nada de muito novo. Mas queria ter feito melhor. Ainda assim, gosto dele, tem boas idéias e melodias. Foi uma preparação para esse terceiro do qual não tenho quase nada a me queixar além de ter demorado muito tempo pra sair e eu já ter feito coisas novas nesse meio tempo. Um dos meus objetivos é tentar diminuir esse delay. Saiu também pela Slag Records.

Em 2004, o Cigarettes abriu o show do Teenage Fanclub. Como foi essa experiência?
Eu lembro de no início dos anos 90, não sei quando exatamente, muita gente deve lembrar, ter visto na Bandeirantes aquele especial do Reading Festival que tinha Teenage. Enquanto eu via eles tocando Everything Flows eu pensei que seria muito legal se um dia eu pudesse abrir um show deles, mas sabia, achava, que era impossível. Não foi. Mas faz tempo que não escuto essa banda.

Fale um pouco sobre sua amizade com o Rodrigo Lariú e o apoio da Midsummer Madness.
Conheço o Rodrigo desde antes do Cigarettes. A história do selo e da banda é indissociável. A gente discorda em algumas coisas, mas sou muito grato a ele. Ele tenta ajudar as bandas, sem ter a ajuda de ninguém.

Como foi o projeto de lançar esse 3º disco, ele já estava engatilhado desde 2008?
Por considerar meu registro mais bem resolvido até então fiz questão que ele saísse em vinil. Banquei as gravações e não havia dinheiro para a prensagem. Aí tivemos a ajuda de mais de sessenta pessoas, uma felicidade muito grande.

E todo o processo de produção e masterização pelo Gustavo Seabra, da Pelvs, como foi?
A ideia inicial era a de que o Gustavo participasse na produção desde as gravações, mas por algum motivo ele não conseguiu. Gravei tudo sozinho junto com o Zé Felipe, técnico de som do finado estúdio BPM no Rio, além de fundador do Zumbi do Mato, e com o Ricardo Mito na bateria. Depois de seis meses do disco gravado, pronto, eu tava vendo como fazer pra lançar e o Gustavo pediu pra dar uma mexida. Essa mexida demorou demais, foi difícil e desgastante em alguns momentos. Chegou uma hora em que eu não sabia de qual versão eu gostava mais. Mas sou fã do Gustavo e ele fez um ótimo trabalho.

Há também o CD, com a versão de estúdio, não?
Em CD saiu a primeira versão, antes de passar pelas mãos do Gustavo. Acho as duas versões muito boas e acredito que quem gosta da banda ficará contente em ter acesso às duas visões.

Como foram os shows de lançamento do 3º disco do Cigarettes, em Itu e no Solar de Botafogo?
Os shows , na verdade em São Paulo mesmo, não Itu, no Espaço Cultural Walden, e no Rio, foram ótimos, adoro tocar, reunir os amigos, conhecer quem gosta da banda, é realmente uma troca de energia, só pra usar o clichê, mas é verdade. E é no show que tudo se revela, que o negócio fica sério, em diversos sentidos. Nas palavras do Gustavo: “Ensaio é ensaio, no show é que é pra valer. Igual no futebol: o cara treina mas só dá pra saber se funciona na hora do jogo. É o pega pra capar.”

Quando tocou em Brasília, você ficou hospedado na casa do vocalista da Divine. Em que ano aconteceu? Que tal o contato e o que pensa sobre o som da Divine?
Foi em 98, no início de 98, e foi muito legal. Tinha uma van pra pegar a gente na Rodoviária! Era um festival daquele programa de rádio, Cult 22. Lembro do Cláudio como uma pessoa gentil e hospitaleira. Ele me mostrou um manifesto Barroco-Grotesco, acho que era isso, que ele estava lançando e conversamos sobre as dificuldades e alegrias de uma banda independente. Não conheço a fundo o trabalho da Divine, mas do show que vi e do pouco que escutei guardo uma impressão de honestidade e inventividade. Essa época acho que foi a que fiz mais shows. Na semana anterior, tinha tocado em Maringá, dois shows, e na semana seguinte ao show de Brasília, toquei em Sergipe e Salvador.

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O que você costuma ouvir no seu dia-a-dia?
É imprevisível. Vai da mpb à música erudita, passando pelo pop de rádio descartável, pós-punk, post-rock, e até indie-rock. Gosto muito do silêncio também.

O Ricardo Spencer dirigiu alguns clipes. Como foi filmar “Addictions”, e agora “Love Concept Alpha”?
Foi uma experiência adorável. Eu e a Dai, minha namorada, estávamos em São Paulo no início de 2009 e passamos um dia inteiro com o Eugênio e o Spencer. Desse dia saíram dois clipes. Conheço Spencer há tantos anos, ficamos longos períodos sem nenhum contato e sempre que a gente se encontra é uma grande festa, ao mesmo tempo que é como se a gente tivesse se visto ontem. Tenho isso com muitas pessoas de quem gosto muito. Acho que esse tipo de coisa revela um pouco da nossa ignorância sobre questões como tempo e espaço. O Spencer ter feito os clipes é de uma generosidade sem tamanho. Além de tudo, ele é um ótimo baixista com quem já tive a honra de tocar por diversas vezes. É um grande amigo. Tenho muita sorte e sou muito grato.

Quais bandas você considera realmente importantes para o indie rock no Brasil?
Todas.

E que grande banda de rock que você descobriu ao longo de sua vida musical?
Mais do que grandes bandas de rock, descobri que em sua maioria quase absoluta, dentro desse conceito, as grandes bandas são grandes engodos existenciais. Entre as poucas exceções, diria que The Smiths, Radiohead e Joy Division talvez tenham sido/sejam grandes bandas de rock.

Onde você costuma garimpar novidades sobre música? Quais os sites, revistas e fontes que você acessa?
Há muito saí dessa frequência de garipagem. Deixo por conta do acaso e da indicação de amigos. Perco menos tempo assim.

Fale sobre suas referências literárias. Quais os seus autores preferidos? O que está lendo agora?
Sempre li e leio bastante. Tenho interesses diversos que vão além da literatura. Tenho muitos heróis e irmãos espirituais com quem compartilho sensibilidades e não necessariamente a mesma capacidade ou talento. Prefiro não nomear ninguém para não dar impressões erradas. De qualquer forma, essas tais referências se misturam às coisas que eu faço, não é difícil identificar, elas saltam aos olhos, são mais como reverências. Estou lendo “O Corpo da Pátria” de Demétrio Magnoli e “O Século de Sartre”, de Bernard Henri-Lévy. Além de outras coisas. Gosto de ler vários livros ao mesmo tempo. Mas vou até o final de todos eles. Ou quase isso.

Como conheceu o Tupanzine?
Nunca tive uma edição em papel do tupanzine nas mãos. Já vi algumas coisas digitalizadas e a primeira vez que eu fui fisgado foi quando eu vi o texto sobre os reveillon no rio, ou o maior encontro de bichas indies das últimas temporadas…acho graça disso até hoje. Mas, falando, talvez, um pouco sério, acho o Tupanzine bem representativo, emblemático de uma “cena” cujos participantes sempre fizeram questão de adotar como filosofia de vida o “não se levar a sério” e o “faço isso por pura diversão” sem perceberem que é essa mesma atitude a responsável por uma estrutura inexistente ou, quando muito, precária, que no médio e longo prazo inviabilizam ou tornam bem mais difícil a continuidade dos trabalhos. Condição essa da qual paradoxalmente passam a se queixar.

É impossível agradar a todo mundo. Como você recebe as críticas?
Acolho a todas elas. As críticas são fundamentais. Desde o “não fui com a sua cara” até a desconstrução com ferramentas teóricas, se a gente faz alguma coisa é, também, pra ser criticado.

Na loucura dos anos 90, você chegou a ter contato com o pessoal da Sonic Disruptor? O que achou desse contato?
Na loucura dos anos 90. Disse bem. Mas sim, toquei com o Sonic Disruptor na Bang!, uma boite que funcionava num Casarão em Botafogo, bem no meio da loucura dos anos 90. Eram uns caras legais. Era um lance meio Inspiral Carpets, meio shoegazer, tinha bons momentos. Eles estavam lançando o Poppers.

Na sua opinião, que bandas você gostaria que não tivesse acabado? Por quê?
Não penso desse jeito. Se acabou, quem sou eu pra querer que não tivesse acabado. Só quem faz é que sabe o que rola. Ou o que não rola. E a vida continua, sempre.

Entre as novas bandas que você tem ouvido, quais merecem ser citadas?
Todas as bandas merecem ser citadas, eu acho, todas tem alguma importância. Mas de coisas novas, destaco o trabalho da Laura Wrona, que cantava no Aspen, uma banda de SP, e lançou agora um disco, sozinha, chamado R.H. Volcano, que é das coisas mais lindas que eu já ouvi.

O rock ainda vale a pena?
Como tentativa de expressão, acho que qualquer uma vale a pena. Já como infantilização indefinida do ser, acho que é algo a ser evitado.

Se você tiver algo a acrescentar, o espaço é todo seu.
Obrigado, Bárbara. Já falei demais. Mas sim, só agradecer aos meus companheiros de banda, Régis, Gustavo, Sidney e Ricardo, por terem topado a maratona que foi fazer esses dois shows de lançamento do disco. Não é pra qualquer um.

Muito Obrigada, Marcelo. E que venham muitos outros trabalhos do Cigarettes.
Virão sim, Bárbara. Obrigado pelo interesse. Não reli o que eu escrevi. Se vc achar que tem alguma coisa estranha ou confusa, me avisa.

Beijo
Marcelo

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Postado 10/01/2014 às 16:24