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\BANDAS\

Low Dream

É bem difícil lembrar de fatos diferentes destes relatados por Andie Iore no seu onipresente texto sobre a Low Dream. Quase todos os links na internet hoje ainda remetem a este texto publicado por Andie no final dos anos 90. Para dar uma variada, vou tentar contar a história como eu a conheço. Peço desculpas por qualquer erro, afinal, esta história começou em 1991, ou 20 anos atrás em relação a data que escrevo.

Giulliano Fernandez editava um fanzine em Brasília chamado Hang The DJ. Era um fanzine com muita informação sobre as bandas que eu gostava: Ride, my bloody Valentine, Velvet Underground, The Smiths, House of Love, Spacemen 3 e Galaxie 500, era único. Um belo dia chega uma carta do Giulliano (que escrevia com uma letra super difícil de ler – confira na capa de “Soundscapes”) me convidando para um show da banda dele, a Flower’s Land. O show seria em Duque de Caxias, num domingo à tarde. Lá fomos eu e meu primo Guilherme, que me ajudava com o fanzine midsummer madness. Claro que o lugar estava vazio e que o show foi um fiasco. Eu e Giulliano mantivemos contato. Ele voltou para Brasília meio chateado com o “fracasso”.

Na edição de 1991 do fanzine midsummer madness, eu escrevi esta matéria sobre a Low Dream.

Meses depois, Giulliano e seu irmão, o baterista Giovanni, me avisaram que a Flower’s Land passara a se chamar Low Dream, para apagar o “fracasso” da “turnê carioca”. Giulliano viajava na descrição das músicas, citando Velvet Underground, Byrds, definia-se como a banda mais britânica entre as “guitar-bands” brasileiras… O texto era mais abstrato que a própria música. Elas eram “pérolas ácidas escorrendo entre distorções de pedais”… WTF! Mas eu gostava daquilo. As correspondências vinham em “papéis de carta” – tirávamos xerox de fotos de bandas que gostávamos e escrevíamos ao lado. Tenho guardadas dezenas delas… durante 1991 trocamos aproximadamente 4 cartas por mês! Os envelopes eram decorados com letras de músicas… Os assuntos eram as bandas novas (Perfect Disaster, House of Love, Loop…), trocas de fitas de cassete, fanzines e bandas.

De nome novo e Samuel tocando baixo, eles lançaram a primeira demo tape – “Dreamland“, que segundo a única referência restante, o texto do Andie, “vendeu mais de 800 cópias” até o lançamento do 1º disco. Em 1993, antes mesmo de lançar este disco, eles gravaram um clipe para a música “Treasure” (dirigido por alunos da UnB) que foi bem veiculado na recém criada MTV Brasil. Era raríssimo uma banda totalmente independente ter um clipe tão bem acabado.

Hoje, olhando no retrovisor, a Low Dream pode ser considerada a precurssora do networking no alternativo brasileiro (naquela época ninguém falava “indie”; os termos eram “alternativo”, “guitar-band”). Todas cartas eram respondidas, Giulliano mantinha mailings atualizadíssimos da imprensa udigrudi brasileira, incluindo grandes jornais, rádios, fanzines e fãs. E ainda por cima, tinham um clipe! A Low Dream ficou ainda mais conhecida nacionalmente e ganhou seu primeiro contrato para lançar disco.

Lançar qualquer coisa no começo dos anos 90 era uma guerra: vinil ou CD, tudo era muito caro e complicado. A loja de CDs importados no Leblon, Rock It!, era também um selo criado por Dado Villa-Lobos (Legião Urbana) e André Muller (ou André X, da Plebe Rude) – dois conterrâneos – com distribuição nacional pela EMI. “Between My Dreams and the Real Things” saiu em somente em 1995, o quarto lançamento do selo, depois de Second Come, Pelvs e Gangrena Gasosa. Low Dream havia sido citada como a banda brasileira favorita de Renato Russo (da Legião Urbana). Foi complicado aceitar o elogio, afinal Renato era o líder da banda de rock mais famosa e mais comercial do Brasil. Ao mesmo tempo, o bom gosto de Renato e Dado, além da publicidade mais do que necessária, facilitaram a digestão.

Antes do CD, “a Low Dream já movimentava um importante séquito, consequencia de um eficiente esquema de divulgação, dando atenção especial aos fãs que entravam em contato com eles” como bem explicou Andie em seu texto. Para completar, a banda tocou nas duas edições do lendário festival Juntatribo, na Unicamp, em 1993 e 1994. Me lembro de um destes shows: Giulliano tinha equipamentos caros e em cima do palco usáva-os com uma familiaridade nerd, de quem dormia abraçado aos seus pedais. Nessa época já não trocávamos mais cartas. E o final do Juntatribo de 1994 consagrava Raimundos e Planet Hemp… o que estava acontecendo com a música que a gente gostava? A Low Dream começou a fazer cada vez menos shows. Nenhuma demo foi lançada, Giulliano escrevia muito pouco e eu menos ainda. Parecia que os “os ogros” haviam vencido…

Em 1995, a banda colocou quatro músicas acústicas num CD chamado “UnCulted” – uma coletânea do programa de rádio Cult 22, apresentado por Marcos Pinheiro, que ainda vai ao ar em Brasília. Além da Low Dream, Oz, Pravda e Maskavo Roots também fazem parte do CD. Oito músicas foram gravadas em formato acústico nos estúdios da rádio, quatro foram para este CD e as outras 4 foram lançadas em cassete e CD-R pela própria banda num EP chamado “Soundscapes“. Músicas novas e antigas em versões acústicas se misturavam a uma versão para “Starcrossed” da banda Drugstore e outra para “Jesus come back to Earth” do ex-Mutante Arnaldo Baptista. A Low Dream continuava viva, e para alegria geral da nação, ainda melhor. A expectativa criada com “These Little Things Touch Me Everytime”, “Acid Trip Smile” e “From the Ocean Inside Your Bewitched Eyes” em suas versões acústicas deixavam a sensação de que o próximo disco seria ainda mais imponente do que o pioneiro “Between My Dreams…”

“Reaching For Balloons” saiu em 1996 com produção mais caprichada que a do primeiro disco, e qualidade de gravação milhas acima de qualquer outro disco nacional contemporâneo. E era tudo uma produção autônoma: a Low Dream havia se desentendido com a Rock It! porque não podia vender seus próprios discos, culpa da burocracia da EMI. Por conta disso, Giulliano criou um selo, o Uptight Records, e bancou do próprio bolso as cópias. Andie: “O disco é mais pop e conta com a inclusão de um quarto membro, o guitarrista Eduardo, que havia acabado de chegar da Europa“. Nem acho “Reaching…” tão mais pop assim, até hoje o considero um dos melhores álbuns nacionais de todos os tempos, com excelente trabalho de guitarras. Se “Between My Dreams…” era a coleção de 3 anos de composições e pioneirismo, “Reaching for Balloons” mostrava que Giulliano tinha extrema competência autoral, perfeccionismo técnico e bom gosto. A semelhança nos discos coloca Low Dream ao lado de outra grande banda brasileira da época: Second Come. O primeiro disco de ambas é uma coleção de suas músicas mais clássicas, mais conhecidas, mas é no segundo disco das duas que está o gênio criativo de seus integrantes. Coincidência ou não, as duas bandas acabaram pelo mesmo motivo: falta de reconhecimento.

Mas, mais uma vez, força de vontade era o que deveria fazer a diferença: sem distribuição nacional, a Low Dream pagou caro pelo pioneirismo. Mesmo com uma enorme rede de contatos espalhados pelo Brasil, o trabalho de distribuir e divulgar o disco devem ter cansado a banda. Era difícil conseguir shows com cachê, palcos com bons equipamentos e, somado a isso, os integrantes da banda assumiam outros compromissos profissionais.

Como atestou Andie em seu texto, “apesar da organização e do controle sobre o seu trabalho, a Low Dream não resistiu à falta de estrutura do meio alternativo brasileiro nos anos 90. A banda nunca anunciou seu fim oficialmente, mas foi sumindo aos poucos. No final da década de 90, Giulliano trocou a guitarra pelas pick ups e se tornou um dos djs mais efetivos da cena eletrônica de Brasília, conhecido como DJ Hopper.” E a última música do último registro da banda, a faixa “Untitled” de “Reaching for Balloons”, é uma faixa longa, instrumental, com um pé na eletrônica.

por Rodrigo Lariú

Algumas cópias da edição original de 1996 de “Reaching for Balloons” ainda estão a venda na LOJA do midsummer madness.

 

Os dois álbuns, a primeira demo e uma compilação de extras da Low Dream foram relançados para as plataformas de streaming no dia 12 de maio. Disponíveis em formato digital aqui no mmrecords desde 2001, “Dreamland”(a demo), “Between My Dreams & the Real Things” (1º álbum), “Reaching for Balloons” (2º álbum) e a compilação “Soundscapes” agora poderão ser ouvidas também no Spotify, Deezer, Apple Music, Tidal, Google Music, Amazon Music e vários outros.

Veja a lista completa:

Dreamland (1992)
primeira fita demo, com 4 músicas, produzida por Geruza do Escola de Escândalos.
Lançada apenas em fita cassete, a versão original tinha uma capa azul, feita em xerox, papel couchê, com imagem bem borrada. A capa ao lado é a nova capa, para o relançamento digital, com design de Giovanni Fernandes, baterista da Low Dream.

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Between My Dreams And The Real Things (1995)
primeiro álbum com 10 músicas, também produzido por Geruza em seu estúdio Artimanha (Brasília).
O álbum amargou mais de 1 ano de espera numa fila de lançamentos da Rock It! até sair, somente em CD. A tiragem é um mistério já que as vendas computadas pela EMI (que distribuía a Rock It!) vendeu o disco para supermercados e lojas de departamento e ele encalhava.

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Soundscapes (1995)
Lançada como uma compilação de extras em cassete, traz gravações feitas para o programa de rádio Cult 22 (a sessão gerou 7 músicas acústicas, 4 delas entraram no CD “Unculted”). Em 2001, nós relançamos a Soundscapes em CDR, incluindo a versão para “Jesus Come Back to Earth” (da coletânea “Onde É Que Está Meu Rock´n´Roll?”, um tributo à Arnaldo Baptista, de 2001, da gravadora Dabliú) e uma versão para “Starcrossed” do Drugstore. A capa original, com uma foto de um sapo, foi substituída por essa ao lado para o relançamento digital (também feita por Giovanni).

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Reaching For Balloons
(1996)
Segundo álbum lançado apenas em CD pela própria banda, usando seu selo Uptight como assinatura.
Foram prensadas apenas 1000 cópias. Alguns poucos CDs desta tiragem ainda estão a venda em CD em nossa loja, junto com o poster original. Com 12 faixas, produção da banda, é o disco mais bem acabado, com letras também em francês e marcou a entrada do 2º guitarrista Luis Eduardo.

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