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Fish Magic

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Um céu que nos protege

Seria te fazer perder um tempo precioso enumerar todas as razões que justificam a tese antropológica de um grande amigo meu que sentencia: “viver está foda”. Mas para dar um molho, esse texto recebeu os retoques finais no fatídico 9/11: Donald Trump eleito presidente dos Estados Unidos; o governador de São Paulo pedindo quebra de sigilo de usuários do Twitter; o do Rio de Janeiro declarando a falência do Estado; o restaurante do lado da minha casa que servia a melhor feijoada da região a R$12,90 fechado repentinamente.

Viver está foda. O cotidiano parece tomado por uma angústia que brota de uma expectativa estranha, indefinida, sufocante, não dá para se apoiar nem no otimismo, nem na tragédia. É esperar. E para suportar, para manter a cabeça em pé, a espinha ereta e o coração tranquilo, fugir um pouco da realidade é fundamental para a sanidade. E acredito que você, assim como eu, foi criado buscando esse escape na música, senão a gente não teria se encontrado por aqui. Por isso, acredite, em 2016, o ano do “viver está foda”, a melhor maneira de fugir um pouco do mundo é dar o play em “Sky High”, o novo disco do Fish Magic.

Acredito que você está achando exagerada essa última frase, deve estar pensando “o cara foi convidado para escrever o release do disco, vai puxar a sardinha etc” mas, não. Acredite. “Sky High” te transporta. Foi a primeira sensação que tive ao ouvir o disco inteiro. Porque é bem diferente do que você espera de uma banda de rock brasileira. Até porque a banda brasileira não faz um som brasileiro, no sentido estrito. Porque essa banda brasileira é na verdade uma “one man band”. Porque o Mário Quinderé, velho de guerra da cena independente do país, não economizou no coração, na poesia que arrancou dos momentos de solidão, do sistema nervoso exposto em cada canção, para compor “Sky High”.

O disco te pega logo de cara. “Blue Light” é aquele bálsamo, aquele gole que você precisa no fim do dia para clarear a mente. Você se pega repetindo o refrão, de olhos fechados, como se tivesse 17 anos de novo: “step into the light / step into the light”. É uma perfeita canção pop, aquilo que dizem, “a vida em três minutos”. E é exatamente isso, você sente a melancolia, mas o arranjo perfeito empurra goela abaixo sem arranhar. “Depende de cada um saber que luz é essa. ‘Step into the light’. Vai melhorar. Não sei como, mas vai. Algo assim. Um pop melancólico, mas ao mesmo tempo esperançoso. Até chegar nesse som aí que está no disco, deu mais trabalho do que as outras. Ver a dinâmica das coisas, quando os instrumentos saem, entram, quando eles soam distorcidos, quando eles soam cristalinos”, me conta Quinderé e garanto: deu certo.

A sonoridade tem influências do melhor do rock inglês, foi feito no Rio, mas poderia ser Londres, Berlim. A suavidade, o etéreo, os detalhes da guitarra dedilhada conduzem “Into the Ocean”, que dá um frio na barriga quando o vocal suave de Quinderé começa a cantar “the innocence is over / you’re going to be found / they’re playing songs for lovers / in the streets of your town / it’s all too much these days / but you should try / no need for hurry / come down”. O golpe fatal chega com o bandolim de Regis Damasceno, do meio pro final. É uma pop song perfeita, linda, linda. Um contraponto com toda a distorção que vem a seguir, em “LCD”. Da introdução à avalanche sonora que chega com o refrão, é possível lembrar porque nos apaixonamos por esse som de guitarras. “Turning heartbreak into songs / has been my business all along / should I sing you something new?”, é a pergunta que encerra a letra. Não, é exatamente isso que a gente quer ouvir. A tal da música da alma.

E aí, logo, chega “Landscape in the Mist” e pedras se derretem. Vem de mansinho, calma, com uma bateria eletrônica bem colocada, violão, piano… Fala de memórias, de lembranças, de histórias que ficaram no passado, mas sem rancor, sem mágoas. Aquelas memórias que ajudaram a construir a pessoa que a gente é hoje. E o coração acelera ainda mais com o vocal de Laura Lavieri, em um dueto emocionante com Mário Quinderé, caprichando no grave. Falar muito estraga, você precisa ouvir. “É sobre memória, reminiscências. Aqueles fantasmas que surgem quando a festa acaba, a música baixa e a euforia passa. Uma balada de piano. O título eu tirei daquele filme grego Paisagem na Neblina, do Theo Angelopoulos. Lindo esse filme. E como as memórias são meio foggy, eu lembrei do filme. Sempre pensei em ter uma voz feminina aqui. Gosto demais desse contraponto. No primeiro disco, a gente teve a Bárbara Eugênia. Nesse, o Regis sugeriu a Laura Lavieri. Ela veio e simplesmente arrasou. Além do contraponto das vozes, essa tem um contraponto nos instrumentos, que é de um lado essa bateria eletrônica seca, monotemática, e de outro os instrumentos acústicos, piano e violão”, explica mr. Fish Magic. Arrebatadora.

Apropriadamente, “Landscape in the Mist” foi a escolhida para ganhar o primeiro videoclipe de “Sky High”, num trabalho belíssimo dirigido por Rômulo Cyriaco, com os atores Branca Messina e Erom Cordeiro. “É a minha melhor música”, me confidencia Quinderé. Tenho dúvidas. Em alguns momentos esse título, pra mim, fica com “The Red Desert”, a canção seguinte. Aqui, a calma do violão e a guitarra rasgando formam uma moldura perfeita para outra letra certeira: “and the stars are gonna make you wait / wait until it gets too late / well, life is gonna take you out someday like anything”. Tem
esperança. Tem a espera de quem tem a madrugada como amiga, mesmo que você não saiba o que realmente esperar do turno da noite.

Imagem de Amostra do You Tube

Esse tema, da noite, da espera, do atravessar a madrugada sonhando acordado permeia “The Saddest Sun”, que chega num crescendo suave, delicado. Vem nas mudanças de andamento em “Until the End of Town”. Incrível imaginar que essas canções todas foram compostas sob o sol do Rio de Janeiro. Na verdade, faz todo o sentido: como falei lá em cima, esse é um disco que te transporta. Poderia ser feito em qualquer lugar. O que vale, aqui, é a inspiração.

“O Fish Magic é a soma de todas essas referências que eu carrego, música, filmes, quadros, vida. Eu crio esse mundo na forma dessas músicas e espero que as pessoas se interessem. Então eu acho que o Rio está nele sim. A luz aqui. O entardecer. Eu passo muito do meu tempo livre na minha varanda, só observando os prédios, os apartamentos acesos, as pessoas, como a luz cai sobre eles, viajando no céu daqui. Acho que o disco foi feito na minha varanda. O disco chama ‘Sky High’ um pouco por isso. Eu li uma entrevista do Tim Burguess do Charlatans. Dizendo que hoje ele tava sóbrio e que antes a vida dele era sky high. Na mesma hora, eu pensei: é isso! No meu caso, não são drogas. Criar essas musicas para o Fish Magic são o meu sky high. Espero que as músicas reflitam esse estado de espírito”, conta o homem-banda.

E é isso. Gravado no estúdio Clássico Botafogo, também conhecido como a casa do Mário Quinderé, mixado na Fábrica de Sonhos, por Bernardo Pacheco, e masterizado por Alexandre Fontanetti no Space Blues, ambos em São Paulo, “Sky High” é um disco de e para apaixonados por música na sua essência. Por isso mesmo, será lançado pelo midsummer madness, um selo fiel a esse perfil. A coprodução é do Regis Damasceno, parceiro de Quinderé das antigas, quando ambos moravam em Fortaleza nos anos 1990, este tocava na Dead Poets e aquele na Velouria, duas bandas seminais do rock independente brasileiro da época. Hoje, Regis é conhecido pelo trabalho com o Cidadão Instigado e a banda do Marcelo Jeneci. Mas a amizade de mais de duas décadas é fundamental para a troca de passes entre as criações de um homem-banda com o produtor-músico, que além do bandolim, tocou baixo e guitarra ebow no disco.

Em tempos que viver é foda, “Sky High” é um alento. Vale repetir: te transporta. O que você precisa pra fugir um pouco da realidade surreal é de um disco feito por um cara, sozinho em casa, colocando pra fora todo o sentimento, memórias, inspirações, aspirações, delírios. É de verdade, você sofre e sonha com cada música. Em momentos complicados, é dentro de
“Sky High” que você quer ficar. Uma paisagem agradável, como o mais belo poente.

Alexandre Petillo
Jornalista e escritor. Autor de “Curtindo música brasileira”, “A Ira de Nasi”, “A Mulher Incrível” e “Noite passada um disco salvou minha vida”


Marcos Sampaio, de O Povo, de Fortaleza sentenciou:
“Com mais riqueza sonora comparado ao anterior, Sky High abre com a dançante Blue Light. O disco segue como um convite para desbravar a noite com Into The Ocean, que traz à memória a antiga banda de Michael Stipe, e LCD, que cheira a Oasis”.

Fernando Lopes, do Floga-se, trouxe leveza ao Sky High:
“É claro: curtir esse disco é mais fácil pra quem gosta de indiepop, esse estilo inofensivo tanto quanto amplo o suficiente pra embarcar nomes e músicas dos mais variados, de Strokes a DIIV. É um disco pra quem não procura nenhuma salvação na música. Pra quem não quer destruir o sistema ou peitar o estabelecido. É pra quem quer só ouvir balançando a cabeça esvaziada de todos os problemas”.

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Noites de mágica

O ano é 1994. Uma efervescência musical juvenil aflora no meio universitário de Fortaleza. Nesse cenário de guitar bands, o Dead Poets, liderado pelo vocalista e guitarrista Mário Quinderé, se destacava com um som que remetia ao Echo & The Bunnymen e ao House Of Love. No ano seguinte, lançaram uma fita demo (em K7 ainda) auto-intitulada, distribuída nacionalmente pelo Midsummer Madness. Em 1996, a banda dividiu um CD Split (“No more dancing days“) com outro grupo cearense, o Velouria. Sempre fazendo shows e conquistando público, o Dead Poets seguiu por mais alguns anos. Porém, no início dos anos 2000, após mudanças de formação e um último EP (“Stop your heart”), a banda acabou.

20 anos depois

Longe de Fortaleza e radicado no Rio de Janeiro, o cantor e compositor Mário Quinderé revela este ano oito belas canções com o disco “Songs From The Night Shift”, primeiro lançamento do projeto Fish Magic, uma one man band cujo nome foi tirado de um quadro do pintor suíço Paul Klee (1879/1940). O projeto e o disco só tomaram forma em 2014, quando Mário, quebrando um hiato de 10 anos sem tocar, iniciou um processo prolífero de composição e gravação.

Aproveitando as horas vagas do trabalho como jornalista, geralmente nos turnos da noite (daí o nome do disco), Mário, ou melhor, o Fish Magic, pôde desenvolver de forma livre o processo de criação de “Songs From The Night Shift”. Na gravação, ousou tocar todos os instrumentos e se arriscou em sons com os quais jamais havia trabalhado antes, como flautas, glockenspiel e wurlitzer, além de alguns elementos eletrônicos, que dão ao disco uma riqueza peculiar de timbres.

Ao longo de “Songs From The Night Shift”, as oito músicas desenham um mosaico de melodias que se complementam e imprimem sentimentos distintos: a esperança no pop de “In a Heartbeat”, a alegria na solar “Pristine”, o rancor na noisy “The High Hand”, o amor juvenil de “Moonrunner”, a passagem do tempo no folk “Where the Summer Nights Go Blue” e a liberdade no college rock de Season of Wonder”. Não por acaso percebe-se uma textura noturna pairando em todas as composições.

Desprendido de uma banda e livre no processo de criação, o Fish Magic contou com a participação do músico Regis Damasceno (Mr. Spaceman, Cidadão Instigado, Porto, Marcelo Jeneci), que emprestou seu toque pessoal ao trabalho tocando todos os baixos e assinando a co-produção do disco. A parceria reforça uma amizade de mais de 20 anos, simbolizada pela regravação de “All For Nothing”, música emblemática da antiga banda de Regis, o Velouria, que ganha aqui uma nova versão, minimalista, com pianos e cordas no lugar das guitarras do original.

Fechando ”Songs From The Night Shift”, a bela balada eletrônica “Ether” traz um dueto entre Mário e a cantora carioca radicada em São Paulo, Bárbara Eugenia. Dona de uma voz suave de timbres graves, a musa empresta seu encanto e talento para encerrar essa obra de forma íntima e delicada.

O disco ganhou corpo e peso com a mixagem de Bernardo Pacheco na Fábrica de Sonhos e a masterização de Bruno Fiacadori no estúdio Space Blues, ambos em São Paulo. “Songs From The Night Shift” sai em formato digital pelo Midsummer Madness, o mesmo selo que lançou a primeira demo do Dead Poets há 20 anos. Assim, fecha-se um ciclo e outro começa. Mas sempre no melhor turno, o da noite.

George Frizzo


Floga-se elogiou o videoclipe e por tabela a música. Leia na íntegra.
“É de “Songs From The Night Shift” que sai “In A Heartbeat”. A música ganhou esse bonito clipe, dirigido por Rômulo Cyríaco, centrado na beleza da atriz Julia Cartier Bresson. A música é um indiepop bacaninha, em inglês, com guitarras leves, limpas, som cristalino.”

Rock In Press achou referências interessantes, concorda ou não?
“O Ex-Dead Poets Mário Quinderé resolveu dar um novo caminho em sua música e criou o projeto solo Fish Magic, cheio de melodias oitentistas, lembranças de bons garage rock, um pouco do início dos anos noventa e boas melodias para balançar a cabeça enquanto ouve com o fone de ouvido.”

Trabalho Sujo cavucou as origens do indie rock cearense: http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/…/17/indie-do-ceara/
“Bandas como Dago Red, Banana Scrait, Velouria, Dead Poets, Heaven Up e 69% Love hoje são apenas notas de rodapé na história do indie brasileiro, cassetes juntando poeira nas caixas de alguma coleção, mas alguns destes heróis daquela resistência seguem insistindo naquela musicalidade particula”

Adriana Martins, do Caderno D do jornal Diário do Nordeste, fez uma extensa e bela matéria sobre o Fish Magicclique aqui para íntegra
“Sobre o disco, se você tem mais de 35 anos e aprecia aquelas referências oitentistas mencionadas, vai achar especialmente interessante – tipo uma “confort food”, mas musical. Com oito faixas, quase todas entre dois, três minutos (sempre uma boa escolha), “Songs from the night shift” é uma pequena pérola, pra ser guardada sempre perto nos arquivos digitais.”

 


Fish Magic no iTunes - http://itunes.apple.com/us/album/id976384049
Fish Magic no Deezer – http://www.deezer.com/artist/7686648
Fish Magic no Spotify - https://open.spotify.com/artist/3591vfmSEixwOgHqOV8sMU