random songs

\BANDAS\

Fish Magic

fish_magic2020_5x7web

foto por Paula Barrene

Claro e escuro, um passeio por uma cidade imaginária

“Kamakura” é o quarto disco do Fish Magic lançado em Agosto de 2022 pelo

Coloquei “Kamakura” no meu celular, conectei no meu receiver Gradiente e os quatro falantes em alto volume executaram “Youth”, a primeira música do disco. Após uma intro de guitarra dedilhada, uma melodia bubblegum explode com guitarras cristalinas estridentes. A melodia encheu a sala e me fez sorrir. Quando a voz do Mário entrou cantando versos esperançosos, sobre se apaixonar de novo, eu fui para “casa”. Senti-me como aquele garoto desengonçado, em Fortaleza, que queria ser um rockstar ouvindo o “Ação 107”, programa da Rádio Universitária que tocava as bandas de rock cearense.

Revi palcos em casas de show esfumaçadas de cigarro e gelo seco, perto da praia, aonde eu ia ver os shows e tentar ser amigo das bandas. Foi em um deles que vi pela primeira vez o Mário Quinderé, a persona por trás do Fish Magic, cantando no Dead Poets, sua primeira banda, enquanto headbangers radicais que odiavam o termo pop, vaiavam esperando algo extremo.

“Kamakura”, para mim, é o disco do Fish Magic que mais se conecta com essa época, porém da posição de um veterano que já experimentou vários caminhos desde então. Aliás, Kamakura é o nome da primeira capital japonesa, que Mário nunca visitou, mas conheceu através de um livro de fotos da cidade que folheava, enquanto estava enfermo na juventude. As fotos o faziam sonhar e desde então essa cidade devir passou a ser uma espécie de Pasárgada para o compositor. E, segundo o autor, este disco serve como um processo de cura, num mundo pós pandêmico cyber punk (mesmo que a palavra original em japonês nada tenha a ver com cura…)

Com exceção dos baixos, dois arranjos de guitarra e um bandolim que o músico e produtor Regis Dasmasceno gravou, “Kamakura” é tocado pelo solitário Mário, que fez ascomposições, vozes, violões, guitarras, teclados e programações. A produção, assim como nos discos anteriores do Fish Magic, foi assinada por Mário e Regis. Assim considero que, para entender profundamente esse disco, tem que se levar em conta a longa parceria de som e amizade dos dois.

No final do século XX, em Fortaleza, houve uma santa trindade das guitar bands: Dead Poets, Dago Red e Velouria. Mário foi o vocalista, guitarrista e compositor do Dead Poets e Regis Damasceno, compositor, guitarrista e cantor do Velouria e desde então, há mais de 20 anos, os caminhos de ambos se cruzam. Por exemplo: Mário faz letras para as músicas do Mr Spaceman, que também é uma banda de um homem só (Regis). Os dois juntos formaram a Fontana, uma banda massa que durou pouco. Regis também fez parte da última formação do Dead Poets e assim seguem outros mergulhos conjuntos, o que não significa que o trabalho dos dois se pareçam, embora ambos, partilhem de uma vibe comum, que bebe no lado indie do rock e do pop.

Essas interseções na trajetória de ambos garantem uma boa química quando eles trabalham juntos e acho que o auge dessa parceria é “Kamakura”. Se palavras e termos como college rock, guitar bands, l0-fi, sépia, super 8, lado B, post punk, 120 minutes, fanzine, fuzz, noise, britpop, Manchester, midsummer madness… atingem teu coração, este disco vai conversar diretamente contigo e se tu não se liga em nada dessas palavras, mas gosta de melodias envolventes que grudam como Bubbaloo, você vai pirar no disco também.

Eu diria que esse disco tem dois momentos, um lado A e um lado B: o que abre o disco é mais solar, com guitarras fritando em dedilhados e riffs, com texturas vintage, como em “Let there be light” – duvido que tu fique imune ao riff dessa música. Os teclados começam a rolar e brilhar ao lado das cordas, em “Everything must go”. Há um som divinamente captado de violões, que soam quase percussivos na balada “Ocean floor”. Já “Give It all away”, que encerra esse primeiro momento, é uma das minhas prediletas, um country rock que me fez lembrar de coisas como Tom Petty e Kurt Ville.

“Until the sun goes down on you”, uma balada minimalista baseada em piano, com um lindo arranjo de baixo, inicia o segundo momento do disco, mais soturno, melancólico, com canções dedicadas a amigos que partiram. Na sequência, temos a faixa que, de longe, é a mais diferente no disco: “Up in the air”, que conversa com as influências pós-punk e techno-pop do Mário. Essa faixa é dedicada ao falecido Jhonny Hansen, saudoso líder do Harry, banda importantíssima da cena pós-punk paulista que inovou muito nos anos 1980 e que estava a frente de seu tempo. Hansen fundou a loja Invasor nos anos 1990 lá em Fortaleza após se mudar de São Paulo e, com seu carisma e conhecimento enciclopédico da música underground, fez muito a cabeça das pessoas que atuavam na cena independente da cidade, deixando uma marca forte ali.

Após essa vibe gélida e dançante, perfeita para dançar com a própria sombra no Madame Satã, a próxima faixa, igualmente melancólica e enlutada, “Dead stars”, é um momento mais suave, um arranjo que vai se revelando aos poucos, lhe deixando em um estado de suspensão. Estamos quase no fim do passeio por “Kamakura”: a instrumental “Serenade” é um delicado emaranhado de guitarra dedilhada com teclados, como um crepúsculo que joga uma luz baixa sobre as edificações e templos da cidade. A noite finalmente chega em “Brittle”. O passeio, agora ao lado de uma lembrança, está sob o luar ou talvez tenha chegado na própria lua. Mário canta sofrido, que não adianta esperar pelo Superman, enquanto o grande sono está chegando. Nesta última canção, que tem à frente uma levada vigorosa de violão, Mário também dedica versos para Beatriz Lamego, personagem fundamental na história do selo midsummer madness, que também se foi recentemente. Ele diz: ” Não há nada mais a fazer / quando tudo que eu quero é passar outro tempo com você”. Talvez sob outro sol, mas aí a canção termina com uma textura estranha e suja, dissonante, citando “Ricardo” da Pelvs, justamente a música que Beatriz cantava… Certamente não é um final hollywoodiano. Passear por “Kamakura” não é garantia de cura. Mas há esperança… Para esse novo mundo, novo normal.

Jonnata Doll
(Jonnata Doll é o fundador da banda Jonnata Doll e os Garotos Solventes, de Fortaleza)

 

FM_web

Notas do quarto 

“Stillness” não é exatamente um disco da quarentena, já que nenhuma música foi composta nesse período. Estas 5 canções já tinham sido escritas antes do terceiro disco do Fish Magic (“Just a light away”) ser lançado. Elas tinham essa linguagem mais acústica, folk, country, e por conta disso não encaixavam ali. Elas seriam agrupadas mais adiante em outro formato.

O Regis Damasceno (Cidadão Instigado, Mr. Spaceman) e eu até tivemos a ideia de montar um projeto paralelo com o Andre Travassos do Moons e lançar algo conjunto nessa linha. Com a pandemia, essa ideia ficou mais distante…

Neste período de isolamento, o Regis começou a trabalhar no disco novo do Mr. Spaceman e me chamou para escrever várias letras. Isso me motivou a trabalhar também no que seria o meu EP folk.

E aqui estamos. Apesar de não ter sido composto agora, sinto que as músicas se conectam muito bem com o que estamos vivendo. Poderiam perfeitamente terem sido escritas nesse período muito doloroso. Pessoalmente, perdi um dos meus melhores amigos para o câncer em abril e, mais recentemente, nossa cachorra faleceu.

Porém, não queria que o disco tivesse essa aura sofrida. Queria que ele fosse sereno, apesar das dores. O lírio partido na capa talvez represente essa dualidade. O disco tem as participações muito especiais do Regis e do Andre, até para manter viva a ideia do nosso projeto. Entreguei as músicas para o Clayton Martin (Cidadão Instigado) mixar e masterizar, o que ele fez lindamente.

Espero que essas músicas tragam algum tipo de conforto para quem as ouvir, assim como trouxeram para mim.

Mário Quinderé, Rio, 9/7/2020

“Stillness” no Bandcamp

foto por Paula Barrenne

foto por Paula Barrenne

Império da luz ou notas sobre um disco

Hello!

Se você está lendo isso, espero que seja porque ouviu ou está prestes a ouvir o terceiro disco que lanço como Fish Magic (“Just a light away”). Em vez de pedir para alguém mais legal e mais interessante que eu para escrever algo sobre o disco, achei por bem desta vez eu mesmo fazer um exercício de memória sobre como cheguei até aqui.

Sorry.

Em dezembro de 2015, eu tinha acabado de lançar o segundo disco do Fish Magic (“Sky High”). Foram dois discos em dois anos seguidos e achei por bem dar um tempo nesse ritmo Roberto Carlos. O problema é que eu continuei compondo. Dessa vez, sem compromisso algum. Apenas empilhando canções. Lancei um single todo eletrônico (“Neon Love”) em 2017 e achei que aquele era o caminho.

Well…

Ano passado me vi com mais de 20 músicas compostas e pela primeira vez tive que escolher canções para um álbum, algo que nunca tive que fazer antes. (Os dois primeiros discos praticamente não tinham sobras. Era realmente a conta do chá). Mandei todas pro Regis Damasceno (baixista do Cidadão Instigado), que produz tudo do Fish Magic comigo. Agora a tarefa era achar um disco dentro dessa sacola que apontava pra todos os lados. Listas vem, listas vão. 10 músicas são escolhidas, há um link entre elas e ele é tudo, menos eletrônico.

A ironia é essa: “Just a light away” tem mais guitarras do que qualquer trabalho que eu já fiz. Em algumas, inclusive, nem consigo negar o clima back to the 90´s ou back to basics, como “Don´t come knocking” e “Low tide”. Ao abrir esse portal da juventude, aproveitei também para mudar algumas coisas na fábrica Fish Magic. Trouxemos o grande Clayton Martin (baterista do Cidadão Instigado) para mixar justamente essas duas músicas mais diretas, mais power pop do disco. Bernardo Pacheco mixou o resto do disco, com maestria, assim como nos dois anteriores.

Um dado importante desse disco é que ele foi composto e gravado na ponte aérea entre Rio de Janeiro (onde moro) e Brasília (onde agora trabalho). Esse estado de trânsito permanente está presente de alguma forma nessas músicas e me permitiu ir para lugares antes inexplorados, como no conto sombrio que faço “The devil in me”, uma zona de desconforto que não necessariamente eu gostaria de revisitar…

O curioso céu de Brasília e o horizonte do planalto deixaram marcas. Elas estão espalhadas na ambiência de cada gravação e talvez concentradas em “Empire of light”, um empréstimo meu tomado de Magritte (tks!) para homenagear essa linda e estranha cidade. Além disso, tem, literalmente, o dedo dos personagens daqui. Ivan Bicudo do Sexy Fi, bravo representante da cena alternativa da capital, toca teclado em “Anywhere High”, uma música que finalmente levará o FM para as pistas de dança.

Tenho fé.

“Gravity” acabou sendo escolhida como single. Cordas, violões, jingle jangle surf, uma canção sobre o peso do passado e o ajuste de contas que todos fazemos diariamente. Não dá pra escapar disso.

Can´t escape gravity… Espero que vocês sejam justos com vocês mesmos nesse acerto. Sigo tentando.

Na masterização, dessa vez buscamos outra referência e achamos o Felipe Tichauer, que envelopou o som no Red Traxx Music em Miami (EUA). Com discos de Elza Soares, Marcelo Camelo e Céu no currículo, o Felipe fez o Fish Magic soar grande. Finalizo louvando o trabalho do Regis, a quem eu conheço há mais de 20 anos, mas que sempre me surpreende. Ouça o baixo dele em “Mindwalk” ou a guitarra de 12 cordas em “The devil in me”. Cada nota importa. Uma regra para a vida.

Mário Quinderé
Brasília, 27/02/2019

“Just a Light Away” no Bandcamp

fish-magic-1

Um céu que nos protege

Seria te fazer perder um tempo precioso enumerar todas as razões que justificam a tese antropológica de um grande amigo meu que sentencia: “viver está foda”. Mas para dar um molho, esse texto recebeu os retoques finais no fatídico 9/11: Donald Trump eleito presidente dos Estados Unidos; o governador de São Paulo pedindo quebra de sigilo de usuários do Twitter; o do Rio de Janeiro declarando a falência do Estado; o restaurante do lado da minha casa que servia a melhor feijoada da região a R$12,90 fechado repentinamente.

Viver está foda. O cotidiano parece tomado por uma angústia que brota de uma expectativa estranha, indefinida, sufocante, não dá para se apoiar nem no otimismo, nem na tragédia. É esperar. E para suportar, para manter a cabeça em pé, a espinha ereta e o coração tranquilo, fugir um pouco da realidade é fundamental para a sanidade. E acredito que você, assim como eu, foi criado buscando esse escape na música, senão a gente não teria se encontrado por aqui. Por isso, acredite, em 2016, o ano do “viver está foda”, a melhor maneira de fugir um pouco do mundo é dar o play em “Sky High”, o novo disco do Fish Magic.

Acredito que você está achando exagerada essa última frase, deve estar pensando “o cara foi convidado para escrever o release do disco, vai puxar a sardinha etc” mas, não. Acredite. “Sky High” te transporta. Foi a primeira sensação que tive ao ouvir o disco inteiro. Porque é bem diferente do que você espera de uma banda de rock brasileira. Até porque a banda brasileira não faz um som brasileiro, no sentido estrito. Porque essa banda brasileira é na verdade uma “one man band”. Porque o Mário Quinderé, velho de guerra da cena independente do país, não economizou no coração, na poesia que arrancou dos momentos de solidão, do sistema nervoso exposto em cada canção, para compor “Sky High”.

O disco te pega logo de cara. “Blue Light” é aquele bálsamo, aquele gole que você precisa no fim do dia para clarear a mente. Você se pega repetindo o refrão, de olhos fechados, como se tivesse 17 anos de novo: “step into the light / step into the light”. É uma perfeita canção pop, aquilo que dizem, “a vida em três minutos”. E é exatamente isso, você sente a melancolia, mas o arranjo perfeito empurra goela abaixo sem arranhar. “Depende de cada um saber que luz é essa. ‘Step into the light’. Vai melhorar. Não sei como, mas vai. Algo assim. Um pop melancólico, mas ao mesmo tempo esperançoso. Até chegar nesse som aí que está no disco, deu mais trabalho do que as outras. Ver a dinâmica das coisas, quando os instrumentos saem, entram, quando eles soam distorcidos, quando eles soam cristalinos”, me conta Quinderé e garanto: deu certo.

A sonoridade tem influências do melhor do rock inglês, foi feito no Rio, mas poderia ser Londres, Berlim. A suavidade, o etéreo, os detalhes da guitarra dedilhada conduzem “Into the Ocean”, que dá um frio na barriga quando o vocal suave de Quinderé começa a cantar “the innocence is over / you’re going to be found / they’re playing songs for lovers / in the streets of your town / it’s all too much these days / but you should try / no need for hurry / come down”. O golpe fatal chega com o bandolim de Regis Damasceno, do meio pro final. É uma pop song perfeita, linda, linda. Um contraponto com toda a distorção que vem a seguir, em “LCD”. Da introdução à avalanche sonora que chega com o refrão, é possível lembrar porque nos apaixonamos por esse som de guitarras. “Turning heartbreak into songs / has been my business all along / should I sing you something new?”, é a pergunta que encerra a letra. Não, é exatamente isso que a gente quer ouvir. A tal da música da alma.

E aí, logo, chega “Landscape in the Mist” e pedras se derretem. Vem de mansinho, calma, com uma bateria eletrônica bem colocada, violão, piano… Fala de memórias, de lembranças, de histórias que ficaram no passado, mas sem rancor, sem mágoas. Aquelas memórias que ajudaram a construir a pessoa que a gente é hoje. E o coração acelera ainda mais com o vocal de Laura Lavieri, em um dueto emocionante com Mário Quinderé, caprichando no grave. Falar muito estraga, você precisa ouvir. “É sobre memória, reminiscências. Aqueles fantasmas que surgem quando a festa acaba, a música baixa e a euforia passa. Uma balada de piano. O título eu tirei daquele filme grego Paisagem na Neblina, do Theo Angelopoulos. Lindo esse filme. E como as memórias são meio foggy, eu lembrei do filme. Sempre pensei em ter uma voz feminina aqui. Gosto demais desse contraponto. No primeiro disco, a gente teve a Bárbara Eugênia. Nesse, o Regis sugeriu a Laura Lavieri. Ela veio e simplesmente arrasou. Além do contraponto das vozes, essa tem um contraponto nos instrumentos, que é de um lado essa bateria eletrônica seca, monotemática, e de outro os instrumentos acústicos, piano e violão”, explica mr. Fish Magic. Arrebatadora.

Apropriadamente, “Landscape in the Mist” foi a escolhida para ganhar o primeiro videoclipe de “Sky High”, num trabalho belíssimo dirigido por Rômulo Cyriaco, com os atores Branca Messina e Erom Cordeiro. “É a minha melhor música”, me confidencia Quinderé. Tenho dúvidas. Em alguns momentos esse título, pra mim, fica com “The Red Desert”, a canção seguinte. Aqui, a calma do violão e a guitarra rasgando formam uma moldura perfeita para outra letra certeira: “and the stars are gonna make you wait / wait until it gets too late / well, life is gonna take you out someday like anything”. Tem
esperança. Tem a espera de quem tem a madrugada como amiga, mesmo que você não saiba o que realmente esperar do turno da noite.

Esse tema, da noite, da espera, do atravessar a madrugada sonhando acordado permeia “The Saddest Sun”, que chega num crescendo suave, delicado. Vem nas mudanças de andamento em “Until the End of Town”. Incrível imaginar que essas canções todas foram compostas sob o sol do Rio de Janeiro. Na verdade, faz todo o sentido: como falei lá em cima, esse é um disco que te transporta. Poderia ser feito em qualquer lugar. O que vale, aqui, é a inspiração.

“O Fish Magic é a soma de todas essas referências que eu carrego, música, filmes, quadros, vida. Eu crio esse mundo na forma dessas músicas e espero que as pessoas se interessem. Então eu acho que o Rio está nele sim. A luz aqui. O entardecer. Eu passo muito do meu tempo livre na minha varanda, só observando os prédios, os apartamentos acesos, as pessoas, como a luz cai sobre eles, viajando no céu daqui. Acho que o disco foi feito na minha varanda. O disco chama ‘Sky High’ um pouco por isso. Eu li uma entrevista do Tim Burguess do Charlatans. Dizendo que hoje ele tava sóbrio e que antes a vida dele era sky high. Na mesma hora, eu pensei: é isso! No meu caso, não são drogas. Criar essas musicas para o Fish Magic são o meu sky high. Espero que as músicas reflitam esse estado de espírito”, conta o homem-banda.

E é isso. Gravado no estúdio Clássico Botafogo, também conhecido como a casa do Mário Quinderé, mixado na Fábrica de Sonhos, por Bernardo Pacheco, e masterizado por Alexandre Fontanetti no Space Blues, ambos em São Paulo, “Sky High” é um disco de e para apaixonados por música na sua essência. Por isso mesmo, será lançado pelo midsummer madness, um selo fiel a esse perfil. A coprodução é do Regis Damasceno, parceiro de Quinderé das antigas, quando ambos moravam em Fortaleza nos anos 1990, este tocava na Dead Poets e aquele na Velouria, duas bandas seminais do rock independente brasileiro da época. Hoje, Regis é conhecido pelo trabalho com o Cidadão Instigado e a banda do Marcelo Jeneci. Mas a amizade de mais de duas décadas é fundamental para a troca de passes entre as criações de um homem-banda com o produtor-músico, que além do bandolim, tocou baixo e guitarra ebow no disco.

Em tempos que viver é foda, “Sky High” é um alento. Vale repetir: te transporta. O que você precisa pra fugir um pouco da realidade surreal é de um disco feito por um cara, sozinho em casa, colocando pra fora todo o sentimento, memórias, inspirações, aspirações, delírios. É de verdade, você sofre e sonha com cada música. Em momentos complicados, é dentro de
“Sky High” que você quer ficar. Uma paisagem agradável, como o mais belo poente.

Alexandre Petillo
Jornalista e escritor. Autor de “Curtindo música brasileira”, “A Ira de Nasi”, “A Mulher Incrível” e “Noite passada um disco salvou minha vida”

“Sky High” no Bandcamp


Marcos Sampaio, de O Povo, de Fortaleza sentenciou:
“Com mais riqueza sonora comparado ao anterior, Sky High abre com a dançante Blue Light. O disco segue como um convite para desbravar a noite com Into The Ocean, que traz à memória a antiga banda de Michael Stipe, e LCD, que cheira a Oasis”.

Fernando Lopes, do Floga-se, trouxe leveza ao Sky High:
“É claro: curtir esse disco é mais fácil pra quem gosta de indiepop, esse estilo inofensivo tanto quanto amplo o suficiente pra embarcar nomes e músicas dos mais variados, de Strokes a DIIV. É um disco pra quem não procura nenhuma salvação na música. Pra quem não quer destruir o sistema ou peitar o estabelecido. É pra quem quer só ouvir balançando a cabeça esvaziada de todos os problemas”.

Felipe Gurgel, do Diário do Nordeste, entrevistou Mario sobre o processo criativo e também arriscou uma análise de Sky High
O repertório é envolvido pela aura do rock alternativo em suas bases, como fica explícito por exemplo em LCD (capte, nesta faixa, algo do DNA do Sonic Youth). (..) Mas há, no miolo do disco, momentos espaciais, como em Nightspotting, a beleza acústico do single Landscape in the Mist, e um pé na sonoridade beatle em The Red Desert”

 

header_fish_magic_songsfromthenightshift

Noites de mágica

O ano é 1994. Uma efervescência musical juvenil aflora no meio universitário de Fortaleza. Nesse cenário de guitar bands, o Dead Poets, liderado pelo vocalista e guitarrista Mário Quinderé, se destacava com um som que remetia ao Echo & The Bunnymen e ao House Of Love. No ano seguinte, lançaram uma fita demo (em K7 ainda) auto-intitulada, distribuída nacionalmente pelo Midsummer Madness. Em 1996, a banda dividiu um CD Split (“No more dancing days“) com outro grupo cearense, o Velouria. Sempre fazendo shows e conquistando público, o Dead Poets seguiu por mais alguns anos. Porém, no início dos anos 2000, após mudanças de formação e um último EP (“Stop your heart”), a banda acabou.

20 anos depois

Longe de Fortaleza e radicado no Rio de Janeiro, o cantor e compositor Mário Quinderé revela este ano oito belas canções com o disco “Songs From The Night Shift”, primeiro lançamento do projeto Fish Magic, uma one man band cujo nome foi tirado de um quadro do pintor suíço Paul Klee (1879/1940). O projeto e o disco só tomaram forma em 2014, quando Mário, quebrando um hiato de 10 anos sem tocar, iniciou um processo prolífero de composição e gravação.

Aproveitando as horas vagas do trabalho como jornalista, geralmente nos turnos da noite (daí o nome do disco), Mário, ou melhor, o Fish Magic, pôde desenvolver de forma livre o processo de criação de “Songs From The Night Shift”. Na gravação, ousou tocar todos os instrumentos e se arriscou em sons com os quais jamais havia trabalhado antes, como flautas, glockenspiel e wurlitzer, além de alguns elementos eletrônicos, que dão ao disco uma riqueza peculiar de timbres.

Ao longo de “Songs From The Night Shift”, as oito músicas desenham um mosaico de melodias que se complementam e imprimem sentimentos distintos: a esperança no pop de “In a Heartbeat”, a alegria na solar “Pristine”, o rancor na noisy “The High Hand”, o amor juvenil de “Moonrunner”, a passagem do tempo no folk “Where the Summer Nights Go Blue” e a liberdade no college rock de Season of Wonder”. Não por acaso percebe-se uma textura noturna pairando em todas as composições.

Desprendido de uma banda e livre no processo de criação, o Fish Magic contou com a participação do músico Regis Damasceno (Mr. Spaceman, Cidadão Instigado, Porto, Marcelo Jeneci), que emprestou seu toque pessoal ao trabalho tocando todos os baixos e assinando a co-produção do disco. A parceria reforça uma amizade de mais de 20 anos, simbolizada pela regravação de “All For Nothing”, música emblemática da antiga banda de Regis, o Velouria, que ganha aqui uma nova versão, minimalista, com pianos e cordas no lugar das guitarras do original.

Fechando ”Songs From The Night Shift”, a bela balada eletrônica “Ether” traz um dueto entre Mário e a cantora carioca radicada em São Paulo, Bárbara Eugenia. Dona de uma voz suave de timbres graves, a musa empresta seu encanto e talento para encerrar essa obra de forma íntima e delicada.

O disco ganhou corpo e peso com a mixagem de Bernardo Pacheco na Fábrica de Sonhos e a masterização de Bruno Fiacadori no estúdio Space Blues, ambos em São Paulo. “Songs From The Night Shift” sai em formato digital pelo Midsummer Madness, o mesmo selo que lançou a primeira demo do Dead Poets há 20 anos. Assim, fecha-se um ciclo e outro começa. Mas sempre no melhor turno, o da noite.

George Frizzo


Floga-se elogiou o videoclipe e por tabela a música. Leia na íntegra.
“É de “Songs From The Night Shift” que sai “In A Heartbeat”. A música ganhou esse bonito clipe, dirigido por Rômulo Cyríaco, centrado na beleza da atriz Julia Cartier Bresson. A música é um indiepop bacaninha, em inglês, com guitarras leves, limpas, som cristalino.”

Rock In Press achou referências interessantes, concorda ou não?
“O Ex-Dead Poets Mário Quinderé resolveu dar um novo caminho em sua música e criou o projeto solo Fish Magic, cheio de melodias oitentistas, lembranças de bons garage rock, um pouco do início dos anos noventa e boas melodias para balançar a cabeça enquanto ouve com o fone de ouvido.”

Trabalho Sujo cavucou as origens do indie rock cearense: http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/…/17/indie-do-ceara/
“Bandas como Dago Red, Banana Scrait, Velouria, Dead Poets, Heaven Up e 69% Love hoje são apenas notas de rodapé na história do indie brasileiro, cassetes juntando poeira nas caixas de alguma coleção, mas alguns destes heróis daquela resistência seguem insistindo naquela musicalidade particula”

Adriana Martins, do Caderno D do jornal Diário do Nordeste, fez uma extensa e bela matéria sobre o Fish Magicclique aqui para íntegra
“Sobre o disco, se você tem mais de 35 anos e aprecia aquelas referências oitentistas mencionadas, vai achar especialmente interessante – tipo uma “confort food”, mas musical. Com oito faixas, quase todas entre dois, três minutos (sempre uma boa escolha), “Songs from the night shift” é uma pequena pérola, pra ser guardada sempre perto nos arquivos digitais.”

 


Fish Magic na Apple Music
Fish Magic no Deezer
Fish Magic no Spotify