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Fellini

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Me diz uma coisa: você citaria como marco inicial para sua banda uma morte ocorrida 4 anos antes? Pois é assim que se referiam ao começo do Fellini: “o grupo ensaiou pela primeira vez no dia 18 de maio de 1984, exatos 4 anos após a morte do vocalista do Joy Division, Ian Curtis”. Um ano depois, em 1985, saiu o primeiro disco e o título também é meio pessimista: “O Adeus de Fellini”. Até chegarem em 2003, no palco principal de um grande festival no Rio de Janeiro, com o vocalista Cadão Volpato usando uma camisa do New Order e achando aquilo tudo muito divertido, foram-se quase 20 anos para entender a jogada.

Na São Paulo de 1984, o Fellini misturava Cadão Volpato (segundo a esquerda na foto acima), Thomas Pappon (o da extrema direita, da foto! – que já tocava bateria em bandas udrigrudi da época, como Mercenárias, Smack e Voluntários da Pátria) e Jair Marcos (extrema esquerda, guitarra). Ricardo Salvagni entrou logo depois na bateria, pois Thomas queria tocar baixo.

fellini_capa_adeus.jpgO primeiro disco, o tal do Adeus, foi gravado em estúdio de 8 canais. A banda fazia poucos shows. Desde o começo, a proposta do Fellini não era de fácil digestão, provavelmente não agradava aos roqueiros e muito menos ao povo da MPB, do samba. Mas a intenção era misturar rock (europeu) com música brasileira. Para fazer isso, recursos caseiros de gravação podiam ser uma solução. Ainda hoje não parece uma receita fácil. O que pode emocionar os incautos é saber que o Fellini foi influência declarada de artistas como Chico Science e Fred 04 (Mundo Livre S.A.).

E realmente, estava tudo ali. A influência do velho continente nas letras, na pegada pós-punk dos arranjos. Tem até uma música famosa deles chamada “Rock Europeu” nesse disco. São Paulo era tão esfumaçada e cinza quanto Manchester ou Liverpool. Só que os músicos daqui eram mais livres.

fellini_capa_sovive2vezes.jpg“Fellini só vive duas vezes” saiu no ano seguinte, 1986, também pela Baratos Afins, gravadora pioneira de SP que já havia lançado o 1º disco. Só que ainda mais guerrilheiro, este disco foi todo gravado em casa, num porta-estúdio de 4 canais, apenas por Thomas e Cadão já que Jair e Ricardo tinham dado um tempo da banda. Sem novelas, o disco é carinhosamente dedicado aos dois ausentes. Li por ai que a cor da capa foi “chupada” da capa do EP “Chronic Town” do REM. Semelhanças cromáticas à parte, os tons abaixo do Equador começaram a dar as caras: é o disco mais “da sala”, onde a canção toma todo espaço, até com algumas batidas tipo samba exorcizadas de teclados safados.

fellini_capa_3lugares.jpg“Três lugares diferentes” é o terceiro disco, de 1987. Ainda pela Baratos Afins, ainda com Thomas e Cadão tocando a fuzarca, este disco tem um acabamento mais fino, mesmo sendo gravado no 4 canais de antes. É o refinamento do lo-fi. Traz participações dos amigos Minho K (que faleceu em 2003 e tem uma música dedicada a ele por Thomas no disco “Deite-se ao meu lado” do The Gilbertos), Ricardo Salvagni, do irmão Tancred Pappon, do ar condicionado Springer Admiral. Mas o chique mesmo foi o percurssionista Silvano Michelino, que também tocou com a banda na reunião de 2003, executando as percurssões deste disco. Residente na França desde 1984, Silvano já trabalhou com artistas diversos como Moraes Moreira, Paulo Moura, Tetê Espíndola, Rique Pantoja, Arrigo Barnabé, As Mercenárias, Chet Baker e o próprio Fellini.

“3 lugares diferentes” tem as músicas mais conhecidas como “La Paz Song”, “Teu Inglês” e “Rio-Bahia”. Foi esse disco que alçou o Fellini ao reconhecimento inter-planetário de ser tocada no programa de John Peel. Naquela época, pré-internet, isso era muita coisa. E não tinha MySpace. Lo-fi não era um termo conhecido e gravações caseiras eram como suicídio em tempos de super-produções à la RPM.

Não é de hoje (ou melhor, de 2003, em razão do show no tal festival) que parte da imprensa musical detestava o Fellini. (A parte que não detestava, tocava na banda). Tudo bem, mas mesmo assim, jornalistas paulistas e cariocas achavam que o rock deveria ser sério ou o que o rock deveria ser saxão. Mas o Fellini… pô, o Fellini nunca foi rock. No blog do MySpace (sinal dos tempos!) do Fellini, tem um texto assim:

“Você já ouviu essa história de que o Fellini “era ruim ao vivo”? É uma lenda urbana, que nasceu de um grande desastre: a mini-temporada de três noites no Masp, em 86. Um desastre por razões técnicas mesmo, uma grande cagada – e não quero entrar em detalhes. O Fellini ensaiava pouco e certamente fez shows fracos, mas era uma banda de pique e fez belos shows. Tenho provas concretas disso, tipo o vídeo de um show em Belo Horizonte, em 89. E aqui está a prova de que o Fellini ‘live’ pelo menos era fiel ao som dos álbuns. Vem de um show ‘de bolso’ ao vivo, feito para 30 pessoas em frente à Bossa Nova, uma loja de discos em uma galeria no centro de São Paulo, na Barão de Itapetininga. Pelos meus cálculos, esse ‘pocket-show’ foi em 87, mas pode ter sido em 88. Cadão (voz), Ricardo (teclado, ritmo eletrônico) e Thomas (guitarra).”

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Depois do show em 2003, críticos cariocas acharam que o show da banda “voltou tão flácido musicalmente como na época em que era equivocadamente saudado como a salvação do pop brasileiro”. De fácil entendimento: flácido porque não é carioca, não tem que expor o corpinho ao sol. E salvação? Vocês ‘tão de sacanagem né?

Em 1988, após reconhecimento interplanetário e de tocar secretamente na casa de pessoas que não eram críticos, o Fellini resolveu dar um tchau pra sua gravadora Baratos Afins. Parece que nunca venderam muitos discos. Mas isso já estava avisado no começo do “3 Lugares diferentes”: “music is not for the lazy”.

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“Amor louco” de 1990 teve esquema de super produção. Fellini saiu da Baratos Afins e foi para a Wop Bop, loja de discos do centro de SP que também estava lançando vinis. Botaram a banda num estúdio de 16 (!!!) canais com engenheiro de som, o RH Jackson, que também fez a programação de baterias eletrônicas. As músicas “Chico Buarque Song”, “Clepsidra” e “LSD” são os destaques. Tocaram no New Music Seminar, em Nova Iorque, num ano em que o festival prestigiou a produção independente brasileira. Perto dali, o muro de Berlim havia caído: como é que faz para gritar “socialista!”, “socialista!”?
Tá bom, chega né? Thomas foi pra Europa. A banda se separou. O Collor foi eleito, o RPM também acabou. Anos nefastos. Anos de alegria.

Thomas gravava solitariamente suas músicas na Europa, pro que viria a ser o The Gilbertos. Stela Campos traficava cassetes e vinis do Fellini pro sol de Recife. Folha de São Paulo em 2003: “As letras eram muito interessantes, e eles já misturavam eletrônica com timbres tradicionais da música brasileira. Influenciou-me muito, diz rapper carioca Marcelo D2“. “Nos anos 80 tinha uma turma que se reunia e promovia sessões de músicas – ouvíamos muito Fellini. São os pioneiros no uso do estúdio caseiro de 4 canais, bateria eletrônica bem tosca, e, mesmo assim, fazendo um som bem sofisticado, diz Fred ZeroQuatro (Mundo Livre)”. Em 1998, a banda se reuniu para um show no Rio de Janeiro e Pappon teve contato com o midsummer madness. Lançou The Gilbertos (a estória está descrita na página deles). Em 2000, fizeram um show histórico no festival RecBeat, em Recife. Músicas deles entraram nas coletâneas “NãoWave” e “The Sexual Life of the Savages”, ambas sobre as bandas undergrounds brasileiras do começo dos anos 80.

fellini_capa_amanha.jpgThomas e Cadão gravaram “Amanhã é tarde” na casa do Thomas, que não era nem no Sumarezinho nem no Morumbi. O disco saiu em 2001, gravado em 4 canais (ah, mas agora é tão fácil), com 13 músicas. Ainda repleto de samplers – Os Ipanemas, Elizeth Cardoso, Jacks Wu – e com pé fincado na MPB. Não era a volta do Fellini. Foi só mais um disco.

Cadão achou gravações perdidas de 1992 chamadas de Funziona Senza Vapore, um projeto sem o Thomas mas com todos os outros 3 Fellini mais Stela. É daqui que vem “Criança de Domingo”, que acabou entrando no disco “Afrociberdelia” do Chico Science e Nação Zumbi. Saiu em 2002. Logo depois Cadão fez um disco solo. Tava na hora do Fellini voltar. Pra explicar a piada que ninguém entendera.

Em 2003, a banda foi uma das atrações no palco principal do Tim Festival, na mesma noite de Rapture e White Stripes, e se apresentou com a formação original: Cadão Volpato (voz), Thomas Pappon (baixo), Jair Marcos (guitarra) e Ricardo Salvagni (bateria). O Fellini ainda contou com a participação especial do percussionista paulista Silvano Michelino. Poucos entenderam, muitos reclamaram. Uma parte das pessoas que foi ao show estava visivelmente feliz e emocionada. O que não é a música, não é?

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O que andam falando:

O Blog Miojo Indie deu sua opinião sobre a discografia do Fellini.
“‘Amanhã É Tarde’ sintetiza a essência da Fellini em um bloco de sons que viajam pelo passado, mas nunca se entregam exclusivamente à ele. Com ares de obra esquecida da década de 1960, o disco aos poucos substitui a raiva controlada do projeto por um jogo de sons e versos essencialmente brandos, quase preguiçosos”.
Leia na íntegra aqui

Resenha sobre o disco “Amanhã é tarde” no blog Scream & Yell:
“‘Amanhã é Tarde’ traz a banda disseminando durante 54’43’’ odes/elegias sem a ausência de coerência que acompanha quase todas as bandas ressuscitadas. O processo de gravação foi semelhante ao dos primeiros discos do grupo, ou seja, músicas gravadas na casa de Thomas Pappon num porta-estúdio de quatro canais, no consagrado-obrigatório-esquema lo fi”.
Leia na íntegra aqui

Show do Fellini em Curitiba, para comemorar 25 anos.
“O pessoal de Recife tramou o mangue beat ouvindo o disco do Fellini, isso é um fato reivindica Pappon”.
Leia na íntegra aqui