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A estória por trás da capa de “Ammonite” e os primeiros anos do Valv

O Valv completa 20 anos de existência em 2020. Entre o início da banda e o lançamento do hoje clássico primeiro EP, o tempo voou. “Ammonite” completará 20 anos só em 2021, mais ou menos na mesma data do ataque às Torres Gêmeas em Nova Iorque. Curiosamente, os dois eventos estão intrinsicamente ligados.

O ano era 2000 quando Alexandre Augusto (bateria), Luciano Cota (guitarra) e o Daniel Maia (baixo), todos egressos de bandas da cena indie e hardcore de Belo Horizonte, se juntaram para formar o Valv. “Faltava um vocalista. Tivemos uma menina que tocou guitarra antes do Alessandro entrar, a Fernanda que foi guitarrista do Heffer/Reffer, e depois tentamos uma outra vocalista que também que não deu muito certo”, lembra Cota.

Num show do Superchunk na cidade, em Setembro de 2000, Alessandro Travassos encontrou Luciano e Alexandre “que eu conhecia muito superficialmente de shows das bandas deles no saudoso Squat“, lembra Alessandro. Todos circulavam por bandas belohorizontinas: Alessandro era  ex-vocalista e guitarrista do No Hands; Luciano e Alexandre haviam tocado no Vellocet e o Luciano tocara no Mr. Rude e no Dreadfull. “Me convidaram pra ir a um ensaio pra ver o que acontecia. Saímos desse ensaio com quase todo o material que viria ser o ‘Ammonite’”.

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Em pé, na esquerda, Luciano Cota, no meio, Daniel Maia. Sentados, à esquerda Alessandro Travassos e na direita, Alexandre Augusto

Já tínhamos o esqueleto de ‘Over It’ e ‘Debtors’ Jail’, que tocávamos nos ensaios do Valv antes do Alessandro entrar. Tínhamos várias partes de músicas, mas como ninguém conseguia cantar ou fazer melodias, as músicas não saíam. Quando o Alessandro entrou, esse problema foi resolvido“, lembra Cota. “Nós íamos para a casa dele, eu mostrava uma base ou um riff e partíamos dali para construir a música. O Alexandre e o Daniel também ajudavam muito nessa composição, principalmente o Alexandre dando algumas ideias de melodias“.

Sinceramente eu não sei qual foi a mágica, relembra Alessandro, “estávamos na mesma onda, todos queriam as mesmas coisas, eu acho“. Desses primeiros ensaios, ele se lembra de “só colocar melodia em algumas músicas e letras em todas“. Só…

Como a banda já ensaiava há algum tempo, haviam vários convites para shows. Quando finalmente acharam um vocalista, correram para gravar o EP.  Os primeiros shows foram, na verdade, dois no mesmo dia. O primeiro aconteceu em uma loja de discos de BH chamada Urban Cave. Estavam nesse show uns representantes do D.A. da Faculdade de Arquitetura da UFMG que convidaram o Valv para tocar na calourada da Faculdade naquele mesmo dia. “Foi um dia intenso“, relembra Alessandro. Ninguém tem certeza da data, mas se era uma “calourada”, deve ter sido em fevereiro ou março de 2001. “Não tínhamos feito nenhum show ainda e fizemos logo dois. Na sequência rolou o primeiro show na AObra, que se não me engano, foi o show de lançamento do ‘Ammonite’”, lembra Cota.

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O EP era a sequência natural de uma banda que começava com integrantes cheios de experiência. Alessandro lembra que eles tinham bastante material e o que ficou de fora do EP acabou sendo usado no 1º álbum da banda, “The Sense of Movement”, que demoraria três anos até ser lançado em 2004. “A gente precisava muito apresentar alguma coisa, não foi nada programado, no sentido de termos que fazer um disco. Foi uma coisa seminal, precisávamos liberar essas ideias no mundo“, segundo Alessandro.

“Ammonite” foi gravado no Estúdio Engenho, em BH. Lá o Valv conheceu quem eles chamam de personal George Martin. “Gravamos no Engenho e como todos nós já havíamos passado por outras bandas, a gente achava que dava conta de se auto-produzir. Nesse momento a gente conheceu o André Cabelo. Ele produziu o EP mesmo sem a gente saber que ele fazia isso porque ele também foi o engenheiro de som que nos gravou. A partir daí o Cabelo sempre esteve envolvido nas coisas do Valv”.

O EP foi todo gravado em ADAT, que era o suporte de melhor qualidade na época. A banda gravou rápido, demoraram menos de duas semanas entre gravar e ter o EP pronto. As seis faixas eram a escolha óbvia, segundo Alessandro, pois eram as músicas que estavam prontas na época. “Se me recordo bem ‘Rhyme Royal’ e ‘Heathen Vows’ (que acabaram entrando somente no ‘The Sense of Movement’) já existiam mas ainda não estavam finalizadas e ‘Puck and the needle’ entrou no EP e no álbum: uma versão acústica no ‘Ammonite’ e a versão full no ‘The Sense of Movement’”.

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Mas e a capa? “Essa história é engraçada. Um querido amigo nosso, Gustavo Rodrigues, morava em Nova York nessa época, ou havia acabado de voltar de lá, e num dia nublado, ele tirou aquela foto (com as Torres Gêmeas do World Trade Center desaparecendo no meio das nuvens), que é sensacional e nos presenteou com a possibilidade de fazer dela a capa do nosso primeiro disco. A ai veio o Bin Laden…”.

Algumas cópias iniciais do EP, que foi lançado somente em CDR, chegaram a sair com a capa do WTC antes do 11 de Setembro de 2001.

capa-ammonite“Com o incidente terrível no WTC, a gente achou melhor trocar a capa porque seria de péssimo gosto usar esse trágico evento para promoção do disco, mesmo a foto tendo sido tirada quase 1 ano antes”.

Foi nesse momento que a Fernanda Azevedo, na época trabalhando na produtora Motor Music, enviou o CDr do Valv para o midsummer madness e nós resolvemos relançar “Ammonite” já com a nova capa. A capa azul, meio shoegazer, foi feita às pressas pelo próprio Alessandro. Ele diz não se lembrar de onde tirou a imagem, mas saiu de algum canto obscuro da internet.

“Ammonite” foi o EP que tornou o Valv visível no Brasil. Com o EP, a banda  foi convidada para tocar em vários festivais como Bananada, Goiânia Noise Festival e Curitiba Pop Festival. Em 2002, o Valv foi uma das primeiras bandas independentes brasileiras a participar do South by Southwest. A saga está documentada no filme “Barulho na Rua 6″, de Kiko Mollica, com apresentação de Jefferson Santos.

Making of:

A discografia do Valv ganhou o álbum “The Sense of Movement” (2004) e depois de um longo período de hibernação, os EPs “Nautilidae”(2019) e “Silurian” (2020). Os títulos dos EPs seguem a tradição da banda de nomear os lançamentos com nomes de grupos de espécies marinhos do início da evolução. Além disso, dos três EPs, apenas “Silurian” não foi gravado por André Cabelo.

Com todos estes lançamentos disponíveis em streaming, a banda resolveu remasterizar e relançar “Ammonite”,  o único que faltava no streaming para completar a discografia.

A remasterização foi feita pelo atual baixista do Valv, Bruno Retes, que também é engenheiro de som. Retes usou as versões finais do CD e as adequou para as plataformas digitais, sem que elas perdessem qualidade ou punch. Não houve qualquer alteração nas faixas. “O trabalho feito pelo André Cabelo há 19 anos é excelente. Além disso,  apesar do Cabelo ainda ter o aparelho de ADAT  e as fitas originais, ninguém tem o software para ler a fita“, comenta Alessandro.

Para tornar o relançamento ainda mais atraente, o Valv incluiu duas faixas ao vivo gravadas em um show feito no Estúdio Saleta, em BH, em 2019. O show foi gravado pelo engenheiro de som Edgard Dedig, mixadas e masterizadas também pelo Bruno.

Além de “Frequency”, “Over It” e outra música do 1º EP ainda bastante requisitada e festejada quando o Valv faz shows. “São duas musicas que marcaram muito todos nós, pelos eventos que elas representam“, confirma Alessandro.

Ouça “Ammonite” original e remasterizado no site do Valv no mmrecords.
Ouça, baixe e compre “Ammonite” original e remasterizado no Bandcamp.
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Postado 23/08/2020 às 8:58